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Mundo Mundano
O Mistério da Estrada de Sintra

Eça de Queirós e Ramalho Ortigão

Capítulo

VII

Exposição do Doutor ***

26 de out. de 2026 · 9 min de leitura

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Contei-lhe ontem como inesperadamente havia encontrado à cabeceira da cama um cabelo louro.

Prolongou-se a minha dolorosa surpresa. Aquele cabelo luminoso, languidamente enrolado, quase casto, era o indício dum assassinato, duma cumplicidade pelo menos! Esqueci-me em longas conjecturas, olhando, imóvel, aquele cabelo perdido.

A pessoa a quem ele pertencia era loura, clara de certo, pequena, mignonne, porque o fio de cabelo era delgadíssimo, extraordinariamente puro, e a sua raiz branca parecia prender-se aos tegumentos cranianos por uma ligação tênue, delicadamente organizada.

O caráter dessa pessoa devia ser doce, humilde, dedicado e amante, porque o cabelo não tinha ao contacto aquela aspereza cortante que oferecem os cabelos pertencentes a pessoas de temperamento violento, altivo e egoísta.

Devia ter gostos simples, elegantemente modestos a dona de tal cabelo, já pelo imperceptível perfume dele, já porque não tinha vestígios de ter sido frisado, ou caprichosamente enrolado, domado em penteados fantasiosos.

Teria sido talvez educada em Inglaterra ou na Allemanha, porque o cabelo denotava na sua extremidade ter sido espontado, hábito das mulheres do norte, completamente estranho às meridionais, que abandonam os seus cabelos à abundante espessura natural.

Isto eram apenas conjecturas, deduções da fantasia, que nem constituem uma verdade científica, nem uma prova judicial.

Esta mulher, que eu reconstruía assim pelo exame dum cabelo, e que me aparecia doce, simples, distinta, finamente educada, como poderia ter sido o protagonista cheio de astúcia daquela oculta tragédia? Mas conhecemos nós porventura a secreta lógica das paixões?

Do que eu estava perfeitamente convencido é que havia uma mulher como cúmplice. Aquele homem não se tinha suicidado. Não estava decerto só, no momento em que bebera o opio. O narcótico tinha-lhe sido dado, sem violência evidentemente, por ardil ou engano, num copo de água. A ausência do lenço, o desaparecimento da gravata, a colocação do fato, aquele cabelo louro, uma cova recentemente feita no travesseiro pela pressão de uma cabeça, tudo indicava a presença de alguém naquela casa durante a noite da catástrofe. Por consequência: impossibilidade de suicídio, verosimilhança de crime.

O lenço achado, o cabelo, a disposição da casa, (evidentemente destinada a entrevistas íntimas) aquele luxo da sala, aquela escada velha, devastada, coberta com um tapete, a corda de seda que eu tinha sentido… tudo isto indicava a presença, a cumplicidade de uma mulher. Qual era a parte dela naquela aventura? Não sei. Qual era a parte de A. M. C.? Era o assassino, o cúmplice, o ocultador do cadáver? Não sei. M. C. não podia ser estranho a essa mulher. Não era de certo um cúmplice tomado exclusivamente para o crime. Para dar opio num copo de água não é necessário chamar um assassino assalariado. Tinham por consequência um interesse comum. Eram amantes? Eram casados? Eram ladrões? E acudia-me à memória aquela inesperada referência a 2:300 libras que de repente me tinha aparecido como um novo mistério. Tudo isto eram conjecturas fugitivas. Para que hei de repetir eu todas as ideias que se formavam e que se desmanchavam no meu cérebro, como nuvens num céu varrido pelo vento?

Há de certo na minha hipótese ambiguidades, contradições e fraquezas, há nos indícios que colhi lacunas e incoerências: muitas coisas significativas me escaparam por certo, ao passo que muitos pormenores inexpressivos se me gravaram na memória, mas eu estava num estado mórbido de perturbação, inteiramente desorganizado por aquela aventura, que inesperadamente, com o seu cortejo de sustos e mistérios, se instalara na minha vida.

O senhor redator, que julga de ânimo frio, os leitores, que sossegadamente, em sua casa, leem esta carta, poderão melhor combinar, estabelecer deduções mais certas, e melhor aproximar-se pela indução e pela lógica da verdade oculta.

Eu achava-me só havia uma hora, quando o mascarado alto entrou, trazendo o chapéu na cabeça e no braço uma capa de casimira alvadia.

— Vamos, disse ele.

Tomei calado o meu chapéu.

— Uma palavra antes, disse ele. Em primeiro lugar dê-me a sua palavra de honra que ao subir agora à carruagem não terá um gesto, um grito, um movimento que me denuncie.

Dei a minha palavra.

— Bem! continuou, agora quero dizer-lhe mais: aprecio a dignidade do seu caráter, a sua delicadeza. Ser-me-hia doloroso que entre nós houvesse em qualquer tempo motivos de desdem, ou necessidades de vingança. Por isso afirmo-lhe: sou perfeitamente estranho a este sucesso. Mais tarde talvez entregue este caso à polícia. Por ora sou eu polícia, juiz e talvez carrasco. Esta casa é um tribunal e um cárcere. Vejo que o doutor leva daqui a desconfiança de que uma mulher se envolveu neste crime: não o suponha, não podia ser. No entanto, se alguma vez lá fora falar, a respeito deste caso, em alguma pessoa determinada e conhecida, dou-lhe a minha palavra de honra, doutor, que o mato, sem remorso, sem repugnância, naturalmente, como corto as unhas. Dê-me agora o seu braço. Ah! esquecia-me, meu caro, que os seus olhos estão destinados a ter estas lunetas de cambraia.

E, rindo, apertou-me o lenço nos olhos.

Descemos a escada, entramos na carruagem, que tinha os stores fechados. Não pude ver quem guiava os cavalos porque só dentro do coupé achei a vista livre. O mascarado sentou-se ao pé de mim. Via-lhe uma pequena parte da face tocada da luz. A pele era fina, pálida, o cabelo castanho, levemente anelado.

A carruagem seguiu um caminho, que pelos acidentes da estrada, pela diferença de velocidade indicando aclives e declives, pelas alternativas de macadame e de calçada, me parecia o mesmo que tínhamos seguido na véspera, no começo da aventura. Rodamos finalmente na estrada larga.

— Ah, doutor!, dizia o mascarado com desenfado, sabe o que me aflige? É que o vou deixar na estrada, só, a pé! Não se pode remediar isto. Mas não se assuste. O Cacem fica a dois passos, e aí encontra facilmente condução para Lisboa.

E ofereceu-me charutos.

Depois de algum tempo, em que fomos na maior velocidade, a carruagem parou.

— Chegámos, disse o mascarado. Adeus, doutor.

E abriu por dentro a portinhola.

— Obrigado! acrescentou. Creia que o estimo. Mais tarde saberá quem sou. Permita Deus que ambos tenhamos no aplauso das nossas consciências e no prazer que dá o cumprimento de um grande dever o derradeiro desenlace da cena a que assistiu. Restituo-lhe a mais completa liberdade. Adeus!

Apertamo-nos a mão, eu saltei. Ele fechou a portinhola, abriu os stores e estendendo-me para fora um pequeno cartão:

— Guarde essa lembrança, disse, é o meu retrato.

Eu, de pé, na estrada, junto das rodas, tomei a fotografia avidamente, olhei. O retrato estava também mascarado!

— É um capricho do ano passado, depois de um baile de máscaras! gritou ele, estendendo a cabeça pela portinhola da carruagem que começava a rodar a trote.

Via-a afastando-se na estrada. O cocheiro tinha o chapéu derrubado, uma capa traçada sobre o rosto.

Quer que lhe diga tudo? Olhei para a carruagem com melancolia! Aquele trem levava consigo um segredo inexplicável. Nunca mais veria aquele homem. A aventura desvanecia-se, tinha findado tudo.

O pobre morto, esse lá ficava, estendido no sofá, que lhe servia de sarcófago!

Achei-me só, na estrada. A manhã estava nevoada, serena, melancólica. Ao longe distinguia ainda o trem. Um camponês apareceu vindo do lado oposto àquele por onde ele desaparecia.

— Onde fica o Cacem?

— De lá venho eu, senhor. Sempre pela estrada, a meio quarto de légua.

A carruagem, pois, tinha-se dirigido para Sintra.

Cheguei ao Cacem fatigado. Mandei um homem a Sintra, à quinta de F., saber se tinham chegado os cavalos; pedi para Lisboa uma carruagem, e esperei-a a uma janela, por dentro dos vidros, olhando tristemente para as árvores e para os campos. Havia meia hora que estava ali, quando vi passar a toda a brida um fogoso cavalo. Pude apenas distinguir entre uma nuvem de pó o vulto quase indistinto do cavaleiro. Ia para Lisboa embuçado em uma capa alvadia.

Tomei informações a respeito da carruagem que passara na véspera conosco. Havia contradições sobre a cor dos cavalos.

Voltou de Sintra o homem que eu ali mandara, dizendo que na quinta de F. tinham sido entregues os cavalos por um criado do campo, o qual dissera que os senhores ao pé do Cacem, tinham encontrado um amigo que os levara consigo em uma caleche para Lisboa. Daí a momentos chegou a minha carruagem. Voltei a Lisboa, corri a casa de F. O criado tinha recebido este bilhete a lápis: Não esperem por mim estes dias. Estou bom. A quem me procurar, que fui para Madrid.

Procurei-o debalde por toda a Lisboa. Comecei a inquietar-me. F. estava evidentemente retido. Receei por mim. Lembraram-me as ameaças do mascarado, vagas mas resolutas. Na noite seguinte, ao recolher para casa, notei que era seguido.

Entregar à polícia este negócio, tão vago e tão incompleto como ele é, seria tornar-me o denunciante de uma quimera. Sei que, em resultado das primeiras notícias que lhe dei, o governador civil de Lisboa oficiou ao administrador de Sintra convidando-o a meter o esforço da sua polícia no descobrimento deste crime. Foram inúteis estas providências. Assim devia ser. O sucesso que constitui o assumpto destas cartas está por sua natureza fora da alçada das pesquisas policiais. Nunca me dirigi às autoridades, quis simplesmente valer-me do público, escolhendo para isso as colunas populares do seu periódico. Resolvi homiziar-me, receando ser vítima de uma emboscada.

São óbvias, depois disto, as rasões por que lhe oculto o meu nome: assinar estas linhas seria patentear-me; não seria esconder-me, como quero.

Do meu impenetrável retiro lhe dirijo esta carta. É manhã. Vejo a luz do sol nascente através das minhas gelosias. Oiço os pregões dos vendedores matinais, os chocalhos das vacas, o rodar das carruagens, o murmúrio alegre da povoação que se levanta depois de um sono despreocupado e feliz… Invejo aqueles que não tendo a fatalidade de secretas aventuras passeiam, conversam, moirejam na rua. Eu — pobre de mim! — estou encarcerado por um mistério, guardado por um segredo!

P. S. Acabo de receber uma longa carta de F. Esta carta, escrita há dias, só hoje me veio à mão. Sendo-me enviada pelo correio, e tendo-me eu ausentado da casa em que vivia sem dizer para onde me mudava, só agora pude haver essa interessante missiva. Aí tem, senhor redator, copiada por mim, a primeira parte dessa carta, da qual depois de amanhã lhe enviarei o resto. Publique-a, se quiser. É mais do que um importante esclarecimento neste obscuro sucesso; é um vestígio luminoso e profundo. F… é um escritor publico, e descobrir pelo estilo um homem é muito mais fácil do que reconstruir sobre um cabelo a figura de uma mulher. É gravíssima a situação do meu amigo. Eu, aflito, cuidadoso, hesitante, perplexo, não sabendo o que faça, não podendo deliberar pela reflexão, rendo-me à decisão do acaso, e elimino, juntamente com a letra do autógrafo, as duas palavras que constituem o nome que firma essa longa carta. Não posso, não devo, não me atrevo, não ouso dizer mais. Poupem-me a uma derradeira declaração, que me repugna. Adivinhem… se poderem. Adeus!

Fim do capítulo VII

O capítulo VIII sai quarta-feira, 28 de outubro às 20:00

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