Eça de Queirós e Ramalho Ortigão
Capítulo
VI
Exposição do Doutor ***
23 de out. de 2026 · 10 min de leitura
Peço-lhe agora toda a sua atenção para o que tenho de contar-lhe.
A madrugada vinha. Sentiam-se já os ruídos da povoação que desperta. A rua não era macadamizada, porque eu sentia o rodar dos carros sobre a calçada. Também não era uma rua larga, porque o eco das carroças era profundo, cheio e próximo. Ouvia pregões. Não sentia carruagens.
O mascarado tinha ficado numa prostração extrema, sentado, imóvel, com a cabeça apoiada nas mãos.
O homem que tinha dito chamar-se A. M. C. estava encostado no sofá, com os olhos cerrados, como adormecido.
Eu abri as portas da janela: era dia. Os transparentes e as persianas estavam corridos. Os vidros eram foscos como os dos globos dos candieiros. Entrava uma luz lúgubre, esverdeada.
— Meu amigo, disse eu ao mascarado, é dia. Coragem! é necessário fazer o exame do quarto, móvel por móvel.
Ele ergueu-se e correu o reposteiro do fundo. Vi uma alcova, com uma cama, e à cabeceira uma pequena mesa redonda, coberta com um pano de veludo verde. A cama não estava desmanchada, cobria-a um edredon de cetim encarnado. Tinha um só travesseiro largo, alto e fofo, como se não usam em Portugal; sobre a mesa estava um cofre vazio e uma jarra com flores murchas. Havia um lavatório, escovas, sabonetes, esponjas, toalhas dobradas e dois frascos esguios de violetas de Parma. Ao canto da alcova estava uma bengala grossa com estoque.
Na disposição dos objetos na sala não havia nenhuma particularidade significativa. O exame dela dava na verdade a persuasão de que se estava numa casa raramente habitada, visitada a espaços apenas, sendo um lugar de entrevistas, e não um interior regular.
A casaca e o colete do morto estavam sobre uma cadeira; um dos sapatos via-se no chão, ao pé da chaise-longue; o chapéu achava-se sobre o tapete, a um canto, como arremessado. O paletot estava caído ao pé da cama.
Procuraram-se todos os bolsos dos vestidos do morto: não se encontrou carteira, nem bilhetes, nem papel algum. Na algibeira do colete estava o relógio, de ouro encobrado, sem firma, e uma pequena bolsa de malha de ouro, com dinheiro miúdo. Não se lhe encontrou lenço. Não se pôde averiguar em que tivesse sido trazido de fora o opio; não apareceu frasco, garrafa, nem papel ou caixa em que tivesse estado, em liquido ou em pó; e foi a primeira dificuldade que no meu espírito se apresentou contra o suicídio.
Perguntei se não havia na casa outros quartos que comunicassem com aquele aposento e que devêssemos visitar.
— Há, disse o mascarado, mas este prédio tem duas entradas e duas escadas. Ora aquela porta, que comunica com os demais quartos, encontramo-la fechada pelo outro lado quando chegamos aqui. Logo este homem não saiu desta sala depois que subiu da rua e antes de morrer ou de ser morto.
Como tinha então trazido o opio? Ainda quando o tivesse já no quarto, o frasco, ou qualquer envólucro que contivesse o narcótico devia aparecer. Não era natural que tivesse sido aniquilado. O copo em que ficara o resto da água opiada, ali estava. Um indício mais grave parecia destruir a hipótese do suicídio: não se encontrou a gravata do morto. Não era natural que ele a tivesse tirado, que a tivesse destruído ou lançado fora. Não era também racional que tendo vindo àquele quarto, esmeradamente vestido como para uma visita cerimoniosa, não trouxesse gravata. Alguém pois tinha estado naquela casa, ou pouco antes da morte ou ao tempo dela. Era essa pessoa que tinha para qualquer fim tomado a gravata do morto.
Ora a presença de alguém naquele quarto, coincidindo com a estada do suposto suicidado ali, tirava a possibilidade ao suicídio e dava presunções ao crime.
Aproximamo-nos da janela, examinamos detidamente o papel em que estava escrita a declaração do suicida.
— A letra é dele, parece-me indubitável que é — disse o mascarado — mas na verdade, não sei porque, não lhe acho a feição usual da sua escrita!
Observou-se o papel escrupulosamente; era meia folha de escrever cartas. Notei logo no alto da página a impressão muito apagada, muito indistinta, duma firma e de uma corôa, que devia ter estado gravada na outra meia folha. Era portanto papel marcado. Fiz notar esta circunstância ao mascarado: ele ficou surpreendido e confuso. No quarto não havia papel, nem tinteiro, nem penas. A declaração pois tinha sido escrita e preparada fora.
— Eu conheço o papel de que ele usava em casa, disse o mascarado; não é deste; não tinha firma, não tinha corôa. Não podia usar doutro.
A impressão da marca não era bastante distinta para que se percebesse qual fosse a firma e qual a corôa. Ficava, porém, claro que a declaração não tinha sido escrita nem em casa dele, onde não havia daquele papel, nem naquele quarto, onde não havia papel algum, nem tinteiro, nem um livro, um buvard, um lápis.
Teria sido escrita fora, na rua, ao acaso? Em casa de alguém? Não, porque ele não tinha em Lisboa, nem relações íntimas, nem conhecimento de pessoas cujo papel fosse marcado com corôa.
Teria sido feita numa loja de papel? Não, porque o papel que se vende vulgarmente nas lojas não tem corôas.
Seria a declaração escrita em alguma meia folha branca tirada de uma velha carta recebida? Não parecia também natural, porque o papel estava dobrado ao meio e não tinha os vincos que dá o enveloppe.
Demais a folha tinha um aroma de pós de marechala, o mesmo que se sentia, suavemente embebido no ar do quarto em que estávamos.
Além disso, pondo o papel diretamente sobre a claridade da luz, distingui o vestígio de um dedo polegar, que tinha sido assente sobre o papel no momento de estar suado ou úmido, e tinha embaciado a sua brancura lisa e acetinada, havendo deixado uma impressão exata. Ora este dedo parecia delgado, pequeno, feminil. Este indício era notavelmente vago, mas o mascarado tinha a esse tempo encontrado um, profundamente eficaz e seguro.
— Este homem, notou ele, tinha o costume invariável, mecânico, de escrever, abreviando-a, a palavra that, deste modo: dois TT separados por um traço. Esta abreviatura era só dele, original, desconhecida. Nesta declaração, aliás pouco inglesa, a palavra that acha-se escrita por inteiro.
Voltando-se então para M. C.:
— Porque não apresentou logo este papel? perguntou o mascarado. Esta declaração foi falsificada.
— Falsificada! exclamou o outro, erguendo-se com sobressalto ou com surpresa.
— Falsificada; feita para encobrir o assassinato: tem todos os indícios disso. Mas o grande, o forte, o positivo indício é este: onde estão 2:300 libras em notas de Inglaterra, que este homem tinha no bolso?
M. C. olhou-o pasmado, como um homem que acorda de um sonho.
— Não aparecem, porque o senhor as roubou. Para as roubar matou este homem. Para encobrir o crime falsificou este bilhete.
— Senhor, observou gravemente A.M.C., fala-me em 2:300 libras: dou-lhe a minha palavra de honra que não sei a que se quer referir.
Eu então disse lentamente pondo os olhos com uma perscrutação demorada sobre as feições do mancebo:
— Esta declaração é falsa, evidentemente, não percebo o que quer dizer este novo negócio das 2:300 libras, de que só agora se fala; o que vejo é que este homem foi envenenado: ignoro se foi o senhor, se foi outro que o matou, o que sei é que evidentemente o cúmplice é uma mulher.
— Não pode ser, doutor!, gritou o mascarado. É uma suposição absurda.
— Absurda!?… E este aposento, este quarto forrado de seda, fortemente perfumado, carregado de estofos, iluminado por uma claridade baça coada por vidros foscos; a escada coberta com um tapete; um corrimão engenhado com uma corda de seda; ali aos pés daquela volteriana aquele tapete feito de uma pele de urso, sobre a qual me parece que estou vendo o vestígio de um homem prostrado? Não vê em tudo isto a mulher? Não é esta evidentemente uma casa destinada a entrevistas de amor?…
— Ou a qualquer outro fim.
— E este papel? este papel de marca pequeníssima, do que as mulheres compram em Paris, na casa Maquet, e que se chama papel da Imperatriz?
— Muitos homens o usam!
— Mas não o cobrem como este foi coberto, com um sachet em que havia o mesmo aroma que se respira no ambiente desta casa. Este papel pertence a uma mulher, que examinou a falsificação que ele encerra, que assistiu a ela, que se interessava na perfeição com que a fabricassem, que tinha os dedos úmidos, deixando no papel um vestígio tão claro…
O mascarado calava-se.
— E um ramo de flores murchas, que está ali dentro? um ramo que examinei e que é formado por algumas rosas, presas com uma fita de veludo? A fita está impregnada do perfume da pomada, e descobre-se-lhe um pequeno vinco, como o de uma unhada profunda, terminando em cada extremidade por um buraquinho… É o vestígio flagrante que deixou no veludo um gancho de segurar o cabelo!
— Esse ramo podiam ter-lho dado, podia tê-lo trazido ele mesmo de fora.
— E este lenço que encontrei ontem debaixo de uma cadeira?
E atirei o lenço para cima da mesa. O mascarado pegou nele avidamente, examinou-o e guardou-o.
M. C. olhava pasmado para mim, e parecia aniquilado pela dura lógica das minhas palavras. O mascarado ficou por alguns momentos silencioso; depois com voz humilde, quase suplicante:
— Doutor, doutor, por amor de Deus! esses indícios não provam. Este lenço, de mulher indubitavelmente, estou convencido que é o mesmo que o morto trazia no bolso. É verdade: não se lembra que não lhe encontramos lenço?
— E não se lembra também que não lhe encontramos gravata?
O mascarado calou-se sucumbido.
— No fim de contas eu não sou aqui juiz, nem parte, exclamei eu. Deploro vivamente esta morte, e falo nisto unicamente pelo pesar e pelo horror que ela me inspira. Que este moço se matasse ou que fosse morto, que caísse às mãos de uma mulher ou às mãos de um homem, importa-me pouco. O que devo dizer-lhe é que o cadáver não pode ficar por muito mais tempo insepulto: é preciso que o enterrem hoje. Mais nada. É dia. O que desejo é sair.
— Tem razão, vai sair já, cortou o mascarado.
E em seguida, tomando M. C. pelo braço, disse-me:
— Um momento! Eu volto já!
E saíram ambos pela porta que comunicava com o interior da casa, fechando-a à chave pelo outro lado.
Fiquei só, passeando agitadamente.
A luz do dia tinha feito surgir no meu espírito uma multidão de pensamentos inteiramente novos e diversos daqueles que me haviam ocupado durante a noite. Há pensamentos que não vivem senão no silêncio e na sombra, pensamentos que o dia desvanece e apaga; há outros que só surgem ao clarão do sol.
Eu sentia no cérebro uma multidão de ideias estremunhadas, que à luz repentina da madrugada voejavam em turbilhão como um bando de pombas amedrontadas pelo estridor de um tiro.
Maquinalmente entrei na alcova, sentei-me na cama, encostei um braço no travesseiro.
Então, não sei como, olhei, reparei, vi, com estranha comoção, sobre a alvura do travesseiro, preso num botão de madrepérola, um longo cabelo louro, um cabelo de mulher.
Não me atrevi logo a tocar-lhe. Pus-me a contemplá-lo, ávida e longamente.
— Era então certo! aí estás pois! encontro-te finalmente!… Pobre cabelo! apieda-me a simplicidade inocente com que te ficaste aí, patente, descuidado, preguiçoso, languido! Podes ter maldade, podes ter malvadez, mas não tens malícia, não tens astúcia. Tenho-te nas mãos, fito-te com os meus olhos; não foges, não estremeces, não coras; dás-te, consentes-te, facilitas-te, meiga, doce, confiadamente… E, no entanto, tênue, exígua, quase microscópica, és uma parte da mulher que eu adivinhava, que eu antevia, que eu procuro! É ela autora do crime? é inteiramente inocente? é apenas cúmplice? Não sei, nem tu mo poderás dizer?
De repente, tendo continuado a considerar o cabelo, por um processo de espírito inexplicável, pareceu-me reconhecer de súbito aquele fio louro, reconhecê-lo em tudo: na sua cor, na sua nuance especial, no seu aspecto! Lembrou-me, apareceu-me então a mulher a quem aquele cabelo pertencia! Mas quando o nome dela me veio insensivelmente aos lábios,disse comigo:
— Ora! por um cabelo! que loucura!
E não pude deixar de rir.
Esta carta vai já demasiadamente longa. Continuarei amanhã.
O capítulo VII sai segunda-feira, 26 de outubro às 20:00
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