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Mundo Mundano
O Mistério da Estrada de Sintra

Eça de Queirós e Ramalho Ortigão

Capítulo

V

Exposição do Doutor ***

21 de out. de 2026 · 6 min de leitura

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Hoje, mais sossegado e sereno, posso contar-lhe com precisão e realidade, reconstruindo-o do modo mais nítido, nos diálogos e nos olhares, o que se seguiu à entrada imprevista daquela pessoa no quarto onde estava o morto.

O homem tinha ficado estendido no chão, sem sentidos: molhamos-lhe a testa, demos-lhe a respirar vinagre de toilette. Voltou a si, e, ainda trêmulo e pálido, o seu primeiro movimento instintivo foi correr para a janela!

O mascarado, porém, tinha-o envolvido fortemente com os braços, e arremessou-o com violência para cima de uma cadeira, ao fundo do quarto. Tirou do seio um punhal, e disse-lhe com voz fria e firme:

— Se faz um gesto, se dá um grito, se tem um movimento, varo- lhe o coração!

— Vá, vá, disse eu, breve! responda… Que quer? Que veio fazer aqui?

Ele não respondia, e com a cabeça tomada entre as mãos, repetia maquinalmente:

— Está perdido tudo! Está tudo perdido!

— Falle, disse-lhe o mascarado, tomando-lhe rudemente o braço, que veio fazer aqui? Que é isto? como soube?…

A sua agitação era extrema: luziam-lhe os olhos entre o cetim negro da máscara.

— Que veio fazer aqui? repetiu agarrando-o pelos ombros e sacudindo-o como um vime.

— Escute… disse o homem convulsivamente. Vinha saber… disseram-me… Não sei. Parece que já cá estava a polícia… queria… saber a verdade, indagar quem o tinha assassinado… vinha tomar informações…

— Sabe tudo! disse o mascarado, aterrado, deixando pender os braços.

Eu estava surpreendido; aquele homem conhecia o crime, sabia que havia ali um cadáver! Só ele o sabia, porque deviam ser de certo absolutamente ignorados aqueles sucessos lúgubres. Por consequência quem sabia onde estava o cadáver, quem tinha uma chave da casa, quem vinha alta noite ao lugar do assassinato, quem tinha desmaiado vendo-se surpreendido, estava positivamente envolvido no crime…

— Quem lhe deu a chave? perguntou o mascarado.

O homem calou-se.

— Quem lhe falou nisto?

Calou-se.

— Que vinha fazer, de noite, às escondidas, a esta casa?

Calou-se.

— Mas como sabia deste absoluto segredo, de que apenas temos conhecimento nós?…

E voltando-se para mim, para me advertir com um gesto imperceptível do expediente que ia tomar, acrescentou:

— … nós e o senhor comissário.

O desconhecido calou-se. O mascarado tomou-lhe o paletot e examinou-lhe os bolsos. Encontrou um pequeno martelo e um masso de pregos.

— Para que era isto?

— Trazia naturalmente isso, queria concertar não sei quê, em casa… um caixote…

O mascarado tomou a luz, aproximou-se do morto, e por um movimento rápido, tirando a manta de viagem, descobriu o corpo: a luz caiu sobre a lívida face do cadáver.

— Conhece este homem?

O desconhecido estremeceu levemente e pousou sobre o morto um longo olhar, demorado e atento.

Eu em seguida cravei os meus olhos, com uma insistência implacável nos olhos dele, dominei-o, disse-lhe baixo, apertando-lhe a mão:

— Porque o matou?

— Eu? gritou ele. Está doido!

Era uma resposta clara, franca, natural, inocente.

— Mas porque veio aqui? observou o mascarado, como soube do crime? Como tinha a chave? Para que era este martelo? Quem é o senhor? Ou dá explicações claras, ou daqui a uma hora está no segredo, e daqui a um mês nas galés. Chame os outros, disse ele para mim.

— Um momento, meus senhores, confesso tudo, digo tudo! gritou o desconhecido.

Esperamos; mas retraindo a voz, e com uma intonação demorada, como quem dita:

— A verdade, prosseguiu, é esta: encontrei hoje de tarde um homem desconhecido, que me deu uma chave e me disse: sei que é Fulano, que é destemido, vá a tal rua, n.º tantos…

Eu tive um movimento ávido, curioso, interrogador. Ia enfim saber onde estava!

Mas o mascarado com um movimento impetuoso pôs-lhe a mão aberta sobre a boca, comprimindo-lhe as faces, e com uma voz surda e terrível:

— Se diz onde estamos, mato-o.

O homem fitou-nos: compreendeu evidentemente que eu também estava ali, sem saber onde, por um mistério, que os motivos da nossa presença eram também suspeitos, e que por consequência não éramos empregados da polícia. Esteve um momento calado e acrescentou:

— Meus senhores, esse homem fui eu que o matei, que querem mais? Que fazem aqui?

— Está preso, gritou o mascarado. Vá chamar os outros, doutor. É o assassino.

— Esperem, esperem, gritou ele, não compreendo! Quem são os senhores? Supus que eram da polícia… São talvez… disfarçam para me surpreender! Eu não conheço aquele homem, nunca o vi. Deixem-me sair… Que desgraça!

— Este miserável há de falar, ele tem o segredo! bradava o mascarado.

Eu tinha-me sentado ao pé do homem. Queria tentar a doçura, a astúcia. Ele tinha serenado, falava com inteligência e com facilidade. Disse-me que se chamava A. M. C., que era estudante de medicina e natural de Vizeu. O mascarado escutava-nos, silencioso e atento. Eu falando baixo com o homem, tinha-lhe pousado a mão sobre o joelho. Ele pedia-me que o salvasse, chamava-me seu amigo. Parecia-me um rapaz exaltado, dominado pela imaginação. Era fácil surpreender a verdade dos seus atos. Com um modo íntimo, confidencial, fiz-lhe perguntas aparentemente sinceras e simples, mas cheias de traição e de análise. Ele, com uma boa fé inexperiente, a todo o momento se descobria, se denunciava.

— Ora, disse-lhe eu, uma coisa me admira em tudo isto.

— Qual?

— É que não tivesse deixado sinais o arsênico…

— Foi opio, interrompeu ele, com uma simplicidade infantil.

Ergui-me de salto. Aquele homem, se não era o assassino, conhecia profundamente todos os segredos do crime.

— Sabe tudo, disse eu ao mascarado.

— Foi ele, confirmou o mascarado convencido.

Eu tomei-o então de parte, e com uma franqueza simples:

— A comédia acabou, meu amigo, tire a sua máscara, apertemo-nos a mão, dêmos parte à polícia. A pessoa que o meu amigo receava descobrir, não tem decerto que ver neste negócio.

— De certo que não. Este homem é o assassino.

E voltando-se para ele com um olhar terrível, que flamejava debaixo da máscara:

— E porque o matou?

— Matei-o… respondeu o homem.

— Matou-o, disse o mascarado com uma lentidão de voz que me aterrou, para lhe roubar 2:300 libras em bank-notes, que aquele homem tinha no bolso, dentro de uma bilheteira em que estavam monogramadas duas letras de prata, que eram as iniciais do seu nome.

— Eu!… para o roubar! Que infâmia! Mente! Eu não conheço esse homem, nunca o vi, não o matei!

— Que malditas contradições! gritou o mascarado exaltado.

A.M.C. objetou lentamente:

— O senhor que está mascarado… este homem não era seu amigo, o único amigo que ele conhecia em Lisboa?

— Como sabe? gritou repentinamente o mascarado, tomando-lhe o braço. Falle,diga.

— Por motivos que devo ocultar, continuou o homem, sabia que este sujeito, que é estrangeiro, que não tem relações em Lisboa, que chegou há poucas semanas, vinha a esta casa…

— É verdade, atalhou o mascarado.

— Que se encontrava aqui com alguém…

— É verdade, disse o mascarado.

Eu, pasmado, olhava para ambos, sentia a lucidez das ideias perturbada, via aparecer uma nova causa imprevista, temerosa e inexplicável.

— Além disso, continuou o homem desconhecido, há de saber também que um grande segredo ocupava a vida deste infeliz…

— É verdade, é verdade, dizia o mascarado absorto.

— Pois bem, ontem uma pessoa, que casualmente não podia sair de casa, pediu-me que viesse ver se o encontrava…

Nós esperávamos, petrificados, o fim daquelas confissões.

— Encontrei-o morto ao chegar aqui. Na mão tinha este papel.

E tirou do bolso meia folha de papel de carta, dobrada.

— Leia, disse ele ao mascarado.

Este aproximou o papel da luz, deu um grito, caiu sobre uma cadeira com os braços pendentes, os olhos cerrados.

Ergui o papel, li:

I declare that I have killed myself with opium.

(Declaro que me matei com opio).

Fiquei petrificado.

O mascarado dizia com a voz absorta como num sonho:

— Não é possível. Mas é a letra dele, é! Ah! que mistério, que mistério!

Vinha a amanhecer.

Sinto-me fatigado de escrever. Quero aclarar as minhas recordações. Até amanhã.

Fim do capítulo V

O capítulo VI sai sexta-feira, 23 de outubro às 20:00

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