Eça de Queirós e Ramalho Ortigão
Capítulo
IV
Exposição do Doutor ***
19 de out. de 2026 · 8 min de leitura
Escrevo-lhe hoje fatigado, e nervoso. Todo este obscuro negócio em que me acho envolvido, o vago perigo que me cerca, a mesma tensão de espírito em que estou para compreender a secreta verdade desta aventura, os hábitos da minha vida repousada subitamente exaltados, — tudo isto me dá um estado de irritação mórbida que me aniquila.
Logo que vi o cadáver perguntei violentamente:
— Que quer isto dizer, meus senhores?
Um dos mascarados, o mais alto, respondeu:
— Não há tempo para explicações. Perdoem ter sido enganados! Pelo amor de Deus, doutor, veja esse homem. Quem tem? Está morto? Está adormecido com algum narcótico?
Dizia estas palavras com uma voz tão instante, tão dolorosamente interrogativa que eu, dominado pelo imprevisto daquela situação, aproximei-me do cadáver, e examinei-o.
Estava deitado numa chaise-longue, com a cabeça pousada numa almofada, as pernas ligeiramente cruzadas, um dos braços curvado descansando no peito, o outro pendente e a mão inerte assente sobre o chão. Não tinha golpe, contusão, ferimento, ou extravasamento de sangue; não tinha sinais de congestão, nem vestígios de estrangulação. A expressão da fisionomia não denotava sofrimento, contração ou dor. Os olhos cerrados frouxamente, eram como num sono leve. Estava frio e lívido.
Não quero aqui fazer a história do que encontrei no cadáver. Seria embaraçar esta narração concisa com explicações científicas. Mesmo sem exames detidos, e sem os elementos de apreciação que só podem fornecer a análise ou a autópsia, pareceu-me que aquele homem estava sob a influência já mortal de um narcótico, que não era tempo de dominar.
— Que bebeu ele? perguntei, com uma curiosidade exclusivamente médica.
Não pensava então em crime nem na misteriosa aventura que ali me prendia; queria só ter uma história progressiva dos factos que tinham determinado a narcotização.
Um dos mascarados mostrou-me um copo que estava ao pé da chaise-longue sobre uma cadeira de estofo.
— Não sei, disse ele, talvez aquilo.
O que havia no copo era evidentemente opio.
— Este homem está morto, disse eu.
— Morto! repetiu um deles, tremendo.
Ergui as pálpebras do cadáver, os olhos tinham uma dilatação fixa, horrível.
Eu fitei-os então um por um e disse-lhes serenamente:
— Ignoro o motivo porque vim aqui; como médico dum doente sou inútil; como testemunha posso ser perigoso.
Um dos mascarados veio para mim e com a voz insinuante, e grave:
— Escute, crê em sua consciência que esse homem esteja morto?
— De certo.
— E qual pensa que fosse a causa da morte?
— O opio; mas creio que devem sabê-lo melhor do que eu os que andam mascarados surpreendendo gente pela estrada de Sintra.
Eu estava irritado, queria provocar algum desenlace definitivo que cortasse os embaraços da minha situação.
— Perdão, disse um, e há que tempo supõe que esse homem esteja morto?
Não respondi, pus o chapéu na cabeça e comecei a calçar as luvas. F… junto da janela batia o pé impaciente. Houve um silêncio.
Aquele quarto pesado de estofos, o cadáver estendido com reflexos lívidos na face, os vultos mascarados, o sossego lúgubre do lugar, as luzes claras, tudo dava àquele momento um aspecto profundamente sinistro.
— Meus senhores, disse então lentamente um dos mascarados, o mais alto, o que tinha guiado a carruagem — compreendem perfeitamente, que se nós tivéssemos morto este homem sabíamos bem que um médico era inútil, e uma testemunha importuna! Desconfiávamos, é claro, que estava sob a ação de um narcótico, mas queríamos adquirir a certeza da morte. Por isso os trouxemos. A respeito do crime estamos tão ignorantes como os senhores. Se não entregamos este caso à polícia, se cercamos de mistério e de violência a sua visita a esta casa, se lhes vendamos os olhos, é porque receávamos que as indagações que se pudessem fazer, conduzissem a descobrir, como criminoso ou como cúmplice, alguém que nós temos em nossa honra salvar; se lhes damos estas explicações…
— Essas explicações são absurdas! gritou F. Aqui há um crime; este homem está morto, os senhores, mascarados; esta casa parece solitária, nós achamo-nos aqui violentados, e todas estas circunstâncias têm um mistério tão revoltante, uma feição tão criminosa, que não queremos nem pelo mais leve ato, nem pela mais involuntária assistência, ser parte neste negócio. Não temos aqui nada que fazer; queiram abrir aquela porta.
Com a violência dos seus gestos, um dos mascarados riu.
— Ah! os senhores escarnecem! gritou F…
E arremessando-se violentamente contra a janela, ia fazer saltar os fechos. Mas dois dos mascarados arrojaram-se poderosamente sobre ele, curvaram-em o, arrastaram-em o até uma poltrona, e deixaram-em o cair, ofegante, trêmulo de desespero.
Eu tinha ficado sentado e impassível.
— Meus senhores, observei, notem que enquanto o meu amigo protesta pela cólera, eu protesto pelo tédio.
E acendi um charuto.
— Mas com os diabos! tomam-nos por assassinos! gritou um violentamente. Não se crê na honra, na palavra de um homem! Se vocês não tiram a máscara, tiro-a eu! É necessário que nos vejam! Não quero, nem escondido por um pedaço de cartão, passar por assassino!… Senhores! dou-lhes a minha palavra que ignoro quem matou este homem!
E fez um gesto furioso. Neste movimento, a máscara desapertou-se, descaindo. Ele voltou-se rapidamente, levando as mãos abertas ao rosto. Foi um movimento instintivo, irrefletido, de desesperação. Os outros cercaram-em o, olhando rapidamente para F…, que tinha ficado impassível. Um dos mascarados, que não tinha ainda falado, o que na carruagem viera defronte de mim, a todo o momento observava o meu amigo com receio, com suspeita. Houve um longo silêncio. Os mascarados, a um canto, falavam baixo. Eu no entanto examinava a sala.
Era pequena, forrada de seda em pregas, com um tapete mole, espesso, bom para correr com os pés nus. O estofo dos moveis era de seda vermelha com uma barra verde, única e transversal, como têm na antiga heráldica os brasões dos bastardos. As cortinas das janelas pendiam em pregas amplas e suaves. Havia vasos de jaspe, e um aroma tépido e penetrante, onde se sentia a verbena e o perfume de marechala.
O homem que estava morto era moço, de perfil simpático e fino, de bigode louro. Tinha o casaco e colete despidos, e o largo peitilho da camisa reluzia com botões de pérolas; a calça era estreita, bem talhada, de uma cor clara. Tinha apenas calçado um sapato de verniz; as meias eram de seda em grandes quadrados brancos e cinzentos.
Pela fisionomia, pela construção, pelo corte e cor do cabelo, aquele homem parecia inglês.
Ao fundo da sala via-se um reposteiro largo, pesado, cuidadosamente corrido. Parecia-me ser uma alcova. Notei admirado que apesar do extremo luxo, dum aroma que andava no ar e uma sensação tépida que dão todos os lugares onde ordinariamente se está, se fala e se vive, aquele quarto não parecia habitado; não havia um livro, um casaco sobre uma cadeira, umas luvas caídas, alguma destas mil pequenas coisas confusas, que demonstram a vida e os seus incidentes triviais.
F…, tinha-se aproximado de mim.
— Conheceste aquele a quem caiu a máscara? perguntei.
— Não. Conheceste?
— Tambem não. Há um que ainda não falou, que está sempre olhando para ti. Receia que o conheças, é teu amigo talvez, não o percas de vista.
Um dos mascarados aproximou-se, perguntando:
— Quanto tempo pode ficar o corpo assim nesta chaise-longue?
Eu não respondi. O que me interrogou fez um movimento colérico, mas conteve-se. Neste momento o mascarado mais alto, que tinha saído, entrara, dizendo para os outros:
— Prompto!…
Houve uma pausa; ouvia-se o bater da pêndula e os passos de F…, que passeava agitado, com o sobrolho duro, torcendo o bigode.
— Meus senhores, continuou voltando-se para nós o mascarado — damos-lhe a nossa palavra de honra que somos completamente estranhos a este sucesso. Sobre isto não damos explicações. Desde este momento os senhores estão retidos aqui. Imaginem que somos assassinos, moedeiros falsos ou ladrões, tudo o que quiserem. Imaginem que estão aqui pela violência, pela corrupção, pela astúcia, ou pela força da lei… como entenderem! O facto é que ficam até amanhã. O seu quarto — disse-me — é naquela alcova, e o seu — apontou para F. — lá dentro. Eu fico consigo, doutor, neste sofá. Um dos meus amigos será lá dentro o criado de quarto do seu amigo. Amanhã despedimo-nos amigavelmente e podem dar parte à polícia ou escrever para os jornais.
Calou-se. Estas palavras tinham sido ditas com tranquilidade. Não respondemos.
Os mascarados, em quem se percebia um certo embaraço, uma evidente falta de serenidade, conversavam baixo, a um canto do quarto, junto da alcova. Eu passeava. Numa das voltas que dava pelo quarto, vi casualmente, perto duma poltrona, uma coisa branca semelhante a um lenço. Passei defronte da poltrona, deixei voluntariamente cair o meu lenço, e no movimento que fiz para o apanhar, lancei despercebidamente mão do objeto caído. Era efetivamente um lenço. Guardei-o, apalpei-o no bolso com grande delicadeza de tacto; era fino, com rendas, um lenço de mulher. Parecia ter bordadas uma firma e uma corôa.
Neste momento deram nove horas. Um dos mascarados exclamou, dirigindo-se a F…
— Vou mostrar-lhe o seu quarto. Desculpe-me, mas é necessário vendar-lhe os olhos.
F. tomou altivamente o lenço das mãos do mascarado, cobriu ele mesmo os olhos, e saíram.
Fiquei só com o mascarado alto, que tinha a voz simpática e atraente.
Perguntou-me se queria jantar. Conquanto lhe respondesse negativamente, ele abriu uma mesa, trouxe um cabaz em que havia algumas comidas frias. Bebi apenas um copo de água. Ele comeu.
Lentamente, gradualmente, começamos a conversar quase em amizade. Eu sou naturalmente expansivo, o silêncio pesava-me. Ele era instruído, tinha viajado e tinha lido.
De repente, pouco depois da uma hora da noite, sentimos na escada um andar leve e cauteloso, e logo alguém tocar na porta do quarto onde estávamos. O mascarado tinha ao entrar tirado a chave e havia-a guardado no bolso. Erguemo-nos sobressaltados. O cadáver achava-se coberto. O mascarado apagou as luzes.
Eu estava aterrado. O silêncio era profundo; ouvia-se apenas o ruido das chaves que a pessoa que estava fora às escuras procurava introduzir na fechadura.
Nós, imoveis, não respirávamos.
Finalmente a porta abriu-se, alguém entrou, fechou-a, acendeu um fósforo, olhou. Então vendo-nos, deu um grito e caiu no chão, imóvel, com os braços estendidos.
Amanhã, mais sossegado e claro de recordações, direi o que se seguiu.
P.S. — Uma circunstância que pode esclarecer sobre a rua e o sítio da casa: De noite senti passarem duas pessoas, uma tocando guitarra, outra cantando o fado. Devia ser meia noite. O que cantava dizia esta quadra:
Escrevi uma carta a Cupido A mandar-lhe perguntar Se um coração ofendido…
Não me lembra o resto. Se as pessoas que passaram, tocando e cantando, lerem esta carta, prestarão um notável esclarecimento dizendo em que rua passavam, e defronte de que casa, quando cantaram aquelas rimas populares.
O capítulo V sai quarta-feira, 21 de outubro às 20:00
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