Eça de Queirós e Ramalho Ortigão
Capítulo
III
Exposição do Doutor ***
16 de out. de 2026 · 5 min de leitura
Anteriormente em O Mistério da Estrada de Sintra…
Na carruagem, um dos mascarados conta que precisa de um médico para uma senhora da sociedade de Lisboa, que daria à luz em segredo.
Percebi que saltava da almofada o nosso cocheiro. Ouvi abrir sucessivamente as duas lanternas e raspar um fósforo na roda. Senti depois estalir a mola que comprime a portinha que se fecha depois de acender as velas, e rangerem nos anéis dos cachimbos os pés das lanternas como se as estivessem endireitando.
Não compreendi logo a razão porque nos tivéssemos detido para semelhante fim, quando não tinha caído a noite e íamos por bom caminho.
Isto porém explica-se por um requinte de precaução. A pessoa que nos servia de cocheiro não quereria parar em lugar onde houvesse gente. Se tivéssemos de atravessar uma povoação, as luzes que principiassem a acender-se e que nós veríamos através da cortina ou das fendas dos stores, poderiam dar-nos alguma ideia do sítio em que nos achássemos. Por esta forma esse meio de investigação desaparecia. Ao passarmos entre prédios ou muros mais altos, a projeção da luz forte das lanternas sobre as paredes e a reflexão dessa claridade para dentro do trem impossibilitava-nos de distinguir se atravessávamos uma aldeia ou uma rua iluminada.
Logo que a carruagem começou a rodar depois de acesas as lanternas, aquele dos nossos companheiros que prometera explicar a F… a razão porque ele nos acompanhava, prosseguiu:
— O amante da senhora a quem me refiro, imagine que sou eu. Sabem-no unicamente neste mundo três amigos meus, amigos íntimos, companheiros de infância, camaradas de estudo, tendo vivido sempre juntos, estando cada um constantemente pronto a prestar aos outros os derradeiros sacrifícios que pode impôr a amizade. Entre os nossos companheiros não havia um médico. Era mister obtê-lo e era ao mesmo tempo indispensável que não passasse a outrem, quem quer que fosse, o meu segredo, em que estão envoltos o amor de um homem e a honra de uma senhora. O meu filho nascerá provavelmente esta noite ou amanhã pela manhã; não devendo saber ninguém quem é sua mãe, não devendo sequer por algum indício vir a suspeitar um dia quem ela seja, é preciso que o doutor ignore quem são as pessoas com quem fala, e qual é a casa em que vai entrar. Eis o motivo por que nós temos no rosto uma máscara; eis o motivo porque os senhores nos hão de permitir que continuemos a ter cerrada esta carruagem, e que lhes vendemos os olhos antes de os apearmos defronte do prédio a que vão subir. Agora compreende, continuou ele dirigindo-se a F…, a razão por que nos acompanha. Era-nos impossível evitar que o senhor viesse hoje de Sintra com o seu amigo, era-nos impossível adiar esta visita, e era-nos impossível também deixá-lo no ponto da estrada em que tomamos o doutor. O senhor acharia facilmente meio de nos seguir e de descobrir quem somos.
— A lembrança, notei eu, é engenhosa mas não lisonjeira para a minha discrição.
— A confiança na discrição alheia é uma traição ao segredo que nos não pertence.
F… achava-se inteiramente de acordo com esta maneira de ver, e disse-o elogiando o espírito da aventura romanesca dos mascarados.
As palavras de F… acentuadas com sinceridade e com afeto, pareceu-me que perturbaram algum tanto o desconhecido. Figurou-se-me que esperava discutir mais tempo para conseguir persuadir-nos e que o desnorteava e surpreendia desagradavelmente esse corte imprevisto. Ele, que tinha a réplica pronta e a palavra fácil, não achou que retorquir à confiança com que o tratavam, e guardou, desde esse momento até que chegamos, um silêncio que devia pesar às suas tendências expansivas e discursadoras.
É verdade que pouco depois deste diálogo o trem deixou a estrada de macadame em que até aí rodara e entrou num caminho vicinal ou num atalho. O solo era pedregoso e esburacado; os solavancos da carruagem, que seguia sempre a galope governada por mão de mestre, e o estrépito dos stores embatendo nos caixilhos mal permitiriam conversar.
Tornamos por fim a entrar numa estrada lisa. A carruagem parou ainda uma segunda vez, o cocheiro apeou rapidamente, dizendo:
— Lá vou!
Voltou pouco depois, e eu ouvi alguém que dizia:
— Vão com raparigas para Lisboa.
O trem prosseguiu.
Seria uma barreira da cidade? Inventaria o que nos guiava um pretexto plausível para que os guardas nos não abrissem a portinhola? Entender-se-hia com os meus companheiros a frase que eu ouvira?
Não posso dizê-lo com certeza.
A carruagem entrou logo depois num pavimento lajeado e daí a dois ou três minutos parou. O cocheiro bateu no vidro, e disse:
— Chegámos.
O mascarado que não tornara a pronunciar uma palavra desde o momento que acima indiquei, tirou um lenço da algibeira e disse-nos com alguma comoção:
— Tenham paciência! perdoem-mo… Assim é preciso!
F… aproximou o rosto, e ele vendou-lhe os olhos. Eu fui igualmente vendado pelo que estava em frente de mim.
Apeámo-nos em seguida e entramos num corredor conduzidos pela mão dos nossos companheiros. Era um corredor estreito segundo pude deduzir do modo por que nos encontramos e demos passagem a alguém que saía. Quem quer que era disse:
— Levo o trem?
A voz do que nos guiara respondeu:
— Leva.
Demoramo-nos um momento. A porta por onde havíamos entrado foi fechada à chave, e o que nos servira de cocheiro passou para diante dizendo:
— Vamos!
Demos alguns passos, subimos dois degraus de pedra, tomamos à direita e entramos na escada. Era de madeira, íngreme e velha, coberta com um tapete estreito. Os degraus estavam desgastados pelos pés, eram ondeados na superfície e esbatidos e arredondados nas saliências primitivamente angulosas. Ao longo da parede, do meu lado, corria uma corda, que servia de corrimão; era de seda e denotava ao tacto pouco uso. Respirava-se um ar úmido e impregnado das exalações interiores dos prédios desabitados. Subimos oito ou dez degraus, tomamos à esquerda num patamar, subimos ainda outros degraus e paramos num primeiro andar.
Ninguém tinha proferido uma palavra, e havia o que quer que fosse de lúgubre neste silêncio que nos envolvia como uma nuvem de tristeza.
Ouvi então a nossa carruagem que se afastava, e senti uma supressão, uma espécie de sobressalto pueril.
Em seguida rangeu uma fechadura e transpusemos o limiar de uma porta, que foi outra vez fechada à chave depois de havermos entrado.
— Podem tirar os lenços, disse-me um dos nossos companheiros.
Descobri os olhos. Era noite.
Um dos mascarados raspou um fósforo, acendeu cinco velas numa serpentina de bronze, pegou na serpentina, aproximou-se de um móvel que estava coberto com uma manta de viagem, e levantou a manta.
Não pude conter a comoção que senti, e soltei um grito de horror.
O que eu tinha diante de mim era o cadáver de um homem.
O capítulo IV sai segunda-feira, 19 de outubro às 20:00
Quer ser avisado assim que sair?
Seu palpite
Quem é o homem morto?
Dica: selecione um trecho do texto para criar um card de citação.