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Mundo Mundano
O Mistério da Estrada de Sintra

Eça de Queirós e Ramalho Ortigão

Capítulo

II

Exposição do Doutor ***

14 de out. de 2026 · 5 min de leitura

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Anteriormente em O Mistério da Estrada de Sintra…

Na estrada de Sintra, o doutor e seu amigo F… são cercados por quatro homens mascarados e aceitam subir numa carruagem de cortinas fechadas.

Julho, 24 de 1870 — Acabo de ver a carta que lhe dirigi publicada integralmente por v. no lugar destinado ao folhetim do seu periódico. Em vista da colocação dada ao meu escrito procurarei nas cartas que houver de lhe dirigir não ultrapassar os limites demarcados a esta secção do jornal.

Por esquecimento não datei a carta antecedente, ficando assim duvidoso qual o dia em que fomos surpreendidos na estrada de Sintra. Foi quarta feira, 20 do corrente mês de julho.

Passo de pronto a contar-lhe o que se passou no trem, especificando minuciosamente todos os pormenores e tentando reconstruir o diálogo que travamos, tanto quanto me seja possível com as mesmas palavras que nele se empregaram.

A carruagem partiu na direção de Sintra. Presumo porém que deu na estrada algumas voltas, muito largas e bem dadas porque se não presentiram pela intercadência da velocidade no passo dos cavalos. Levaram-me a supô-lo, em primeiro lugar as diferenças de declive no nível do terreno, com quanto estivéssemos rodando sempre em uma estrada macadamizada e lisa; em segundo lugar umas leves alterações na quantidade de luz que havia dentro do coupé coada pela cortina de seda verde, o que me indicava que o trem passava por encontradas exposições com relação ao sol que se escondia no horizonte.

Havia evidentemente o desígnio de nos desorientar no rumo definitivo que tomássemos.

É certo que, dois minutos depois de termos principiado a andar, me seria absolutamente impossível decidir se ia de Lisboa para Sintra ou se vinha de Sintra para Lisboa.

Na carruagem havia uma claridade baça e tênue, que todavia nos permitia distinguir os objetos. Pude ver as horas no meu relógio. Eram sete e um quarto.

O desconhecido que ia defronte de mim examinou também as horas. O relógio que ele não introduziu bem na algibeira do colete e que um momento depois lhe caiu, ficando por algum tempo patente e pendido da corrente, era um relógio singular que se não confunde facilmente e que não deixará de ser reconhecido, depois da notícia que dou dele, pelas pessoas que alguma vez o houvessem visto. A caixa do lado oposto ao mostrador era de esmalte preto, liso, tendo no centro, por baixo de um capacete, um escudo de armas de ouro encobrado e polido.

Havia poucos momentos que caminhávamos quando o indivíduo sentado defronte de F…, o mesmo que na estrada nos instara mais vivamente para que o acompanhássemos, nos disse:

— Eu julgo inútil asseverar-lhes que devem tranquilizar-se inteiramente em quanto à segurança das suas pessoas…

— Está visto que sim, respondeu o meu amigo; nós estamos perfeitamente sossegados a todos os respeitos. Espero que nos façam a justiça de acreditar que nos não têm coatos pelo medo. Nenhum de nós é tão criança que se apavore com o aspecto das suas máscaras negras ou das suas armas de fogo. Os senhores acabam de ter a bondade de nos certificar de que não querem fazer-nos mal: nós devemos pela nossa parte anunciar-lhes que desde o momento em que a sua companhia principiasse a tornar-se-nos desagradável, nada nos seria mais fácil do que arrancar-lhes as máscaras, arrombar os stores, convidá-los perante o primeiro trem que passasse por nós a que nos entregassem as suas pistolas, e relaxá-los em seguida aos cuidados policiais do regedor da primeira paróquia que atravessássemos. Parece-me portanto justo que principiemos por prestar o devido culto aos sentimentos da amabilidade, pura e simples, que nos tem aqui reunidos. Doutro modo ficaríamos todos grotescos: os senhores terríveis e nós assustados.

Com quanto estas coisas fossem ditas por F… com um ar de bondade risonha, o nosso interlocutor parecia irritar-se progressivamente ao ouvi-lo. Movia convulsivamente uma perna, firmando o cotovelo num joelho, pousando a barba nos dedos, fitando de perto o meu amigo. Depois, reclinando-se para trás e como se mudasse de resolução:

— No fim de contas, a verdade é que tem razão e talvez eu fizesse e dissesse o mesmo no seu lugar.

E, tendo meditado um momento, continuou:

— Que diriam porém os senhores se eu lhes provasse que esta máscara em que querem ver apenas um sintoma burlesco é em vez disso a confirmação da seriedade do caso que nos trouxe aqui?… Queiram imaginar por um momento um desses romances como há muitos: Uma senhora casada, por exemplo, cujo marido viaja há um ano. Esta senhora, conhecida na sociedade de Lisboa, está grávida. Que deliberação há de tomar?

Houve um silêncio.

Eu aproveitei a pequena pausa que se seguiu ao enunciado um tanto rude daquele problema e respondi:

— Enviar ao marido uma escritura de separação em regra. Depois, se é rica, ir com o amante para a America ou para a Suissa; se é pobre, comprar uma machina de costura e trabalhar para fora numa água furtada. É o destino para as pobres e para as ricas. De resto, em toda a parte se morre depressa nessas condições, num cottage à beira do lago Genebra ou num quarto de oito tostões ao mês na rua dos Vinagres. Morre-se igualmente, de tísica ou de tédio, no esfalfamento do trabalho ou no enjoo do idílio.

— E o filho?

— O filho, desde que está fora da família e fora da lei, é um desgraçado cujo infortúnio provém em grande parte da sociedade que ainda não soube definir a responsabilidade do pai clandestino. Se os pais fazem como a legislação, e mandam buscar gente à estrada de Sintra para perguntar o que se há de fazer, o melhor para o filho é deitá-lo à roda.

— O doutor discorre muito bem como filósofo distinto. Como puro médico, esquece-lhe talvez que na conjuntura de que se trata, antes de deitar o filho à roda há uma pequena formalidade a cumprir, que é deitá-lo ao mundo.

— Isso é com os especialistas. Creio que não é nessa qualidade que estou aqui.

— Engana-se. É precisamente como médico, é nessa qualidade que aqui está e é por esse título que viemos busca-lo de surpresa à estrada de Sintra e o levamos a ocultas a prestar auxílio a uma pessoa que precisa dele.

— Mas eu não faço clínica.

— É o mesmo. Não exerce essa profissão; tanto melhor para o nosso caso: não prejudica os seus doentes abandonando-os por algumas horas para nos seguir nesta aventura. Mas é formado em Paris e publicou mesmo uma tese de cirurgia que despertou a atenção e mereceu o elogio da faculdade. Queira fazer de conta que vai assistir a um parto.

O meu amigo F… pôs-se a rir e observou:

— Mas eu que não tenho curso médico nem tese alguma de que me acuse na minha vida, não quererão dizer-me o que vou fazer?

— Quer saber o motivo porque se encontra aqui?… Eu lho digo.

Neste momento porém a carruagem parou repentinamente e os nossos companheiros sobressaltados ergueram-se.

Fim do capítulo II

O capítulo III sai sexta-feira, 16 de outubro às 20:00

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