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Mundo Mundano
O Mistério da Estrada de Sintra

Eça de Queirós e Ramalho Ortigão

Capítulo

XII

De F... ao médico

06 de nov. de 2026 · 14 min de leitura

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As palavras do alemão acabavam de lançar no meu espírito a luz súbita de uma revelação que me obrigava a meditar.

O que se passava por mim, o mistério que me cercava, o cadáver que vira, a presunção — ainda que vaga — da concorrência de um ou mais amigos meus envolvidos neste acontecimento, tudo isto era tão extraordinário e tão grave que eu não ousava referi-lo ao homem desconhecido que o acaso me deparava por vizinho.

Era já positivo para mim que me achava em Lisboa. Desejava naturalmente saber qual era a rua e a casa em que estava; não me ocorria porém um pretexto plausível para levar o alemão a dizer-mo, sem que eu o interrogasse de um modo ambíguo, que poderia levantar sobre a situação em que me acho suspeitas talvez perigosas para a segurança das pessoas comprometidas neste negócio. Contentei-me pois em alegar o incômodo a que me obrigava a posição em que estava, e dei as boas noites ao meu vizinho. Ele despediu-se batendo no muro três pancadas espaçadas por pausas iguais às daquelas com que eu primeiro lhe despertara a atenção. Lembrou-me que poderia ser maçam aquele homem, e que nas circunstâncias em que eu estava me serviria a proteção que lhe pedisse em nome de juramentos recíprocos e de compromissos comuns. Dei-lhe então uma letra, ele respondeu-me com outra e assim construímos sucessivamente a palavra da senha.

— Salut, mon frêre! exclamou ele.

— Segredo! disse-lhe eu baixinho, respondendo com os nós dos dedos no muro ao sinal que me dera.

Fechei em seguida o armário, cheguei a cama para o lugar donde a tinha removido, e deitei-me vestido.

Não podia dormir. Principiei a pensar e a entristecer.

Nesta casa, debaixo destes mesmos tectos, está morto um homem, moço, elegante e belo, que entrara aqui, cheio talvez de esperanças, de alegrias, de projetos no futuro, e que de repente caiu para todo o sempre, envenenado por mão misteriosa, ignorado, desconhecido, só, longe de uma mulher amada que o espera talvez a esta hora, longe da família que o acarinhou em pequeno, longe dos lugares saudosos que o viram nascer, da mãe lacrimosa que lhe cerrasse os olhos, do pai angustiado que em nome da humanidade lhe lançasse a derradeira benção.

Desventurado rapaz! quem sabe as torturas por que passou o teu espírito para se desprender violentamente da terra, deixando na sociedade o seu corpo inerte, impassível, mudo como a interrogação de um enigma posto anonimamente no meio de uma página branca? quem sabe os pensamentos que a morte imobilizou no teu cérebro? quem sabe os afetos que ela enregelou no teu coração, onde há pouco tempo ainda golfava abundantemente a fecunda seiva dessa mocidade esterilizada e extinta agora para sempre?

Pobre moço! tão digno de lástima como és, merecedor talvez de profundas saudades, aí estás adormecido no teu sono eterno, vestido de baile, coberto com uma manta de viagem, estirado num sofá, insensível para sempre às alegrias e às amarguras desta vida miserável; e não haverá por ventura uma só lágrima que comemore, na história breve da tua passagem na terra, este prazo tão pungentemente melancólico em que os mortos estão esperando dos vivos o derradeiro e supremo favor que a humanidade pode dispensar àqueles que mais presa e que mais ama: a doação da cova em que reside o esquecimento!

Os olhos daqueles que te amam ainda não choram por ti. Estão fechados talvez pelo sono tranquilo e doce, atravessado em sonhos pela tua imagem querida; estão por ventura fitos no conhecido caminho por onde esperam sentir-te chegar, conhecer-te o passo retardado, ouvir-te a voz cantarolando a última valsa que o baile te deixou no ouvido, ver-te finalmente aparecer, descuidado, risonho e feliz.

Coitados!… Os passos daquele que ainda hoje talvez se despediu da vós contando voltar a encontrar-vos poucas horas depois, não tornarão a medir o caminho da casa em que o esperam; a sua voz não responderá mais à voz que o chame; os seus olhos nunca mais se embeberão nos olhos que o fitavam; os seus lábios não voltarão outra vez a aproximar-se dos lábios que se colavam nos dele!

Eu não choro a tua memória, porque não te conheço, porque nunca nos encontramos, porque não sei quem és. Mas não quero insultar a dor que adeja sobre a tua morte, deixando-me dormir na mesma casa em que jazes insepulto, em quanto alguém te espera vivo no mundo.

Foi impelido por estes sentimentos, meu querido amigo, que eu me levantei da cama em que me estendera e vim para a mesa em que ceei, passar a noite escrevendo-te estas longas páginas, que de certo estimaremos ler um dia, em disposição de espírito bem diferente daquela em que ambos nos achamos hoje.

Tinha em pouco mais de meio a narração que te estou fazendo, quando o silêncio que me envolvia, cortado apenas pelo frêmito da minha pena no papel, foi interrompido pelas vozes dos mascarados falando baixo no aposento que atravessei antes de entrar naquele em que estou. Tinha terminado o parágrafo anterior a este quando o mesmo rumor se repetiu, e tive então curiosidade de escutar o que se dizia. Aproximei-me da porta e colei o ouvido ao buraco da fechadura, pelo qual nada via. Não sendo natural que os nossos aprisionadores estejam às escuras, é provável que haja um corredor, uma passagem ou um pequeno quarto entre aquele em que eu me acho e o quarto próximo em que eles falam. Não podia perceber o que diziam. Apenas de quando em quando alguma palavra solta e destacada me chegava ao ouvido. Dispunha-me a vir continuar a escrever ou a terminar esta carta, quando um levantou mais a voz e eu ouvi distintamente estas palavras:

— Mas as notas de banco, 2:300 libras em notas! Não as trazia ele?

— Sei que as trazia, dizia outra voz.

— É atroz então!

Estas palavras, únicas que ouvi, fizeram-me a impressão que podes calcular!

É provado para mim que a casa a que fomos trazidos não é um simples ninho consagrado a entrevistas de amor, como eu primeiro supus. Das hipóteses do prussiano é absolutamente necessário aceitar uma: isto ou é uma casa de jogo ou uma loja maçônica. Assim o provam convincentemente os ruídos que se ouviam na morada contígua. Num retiro de paixões ternas não se escancaram risadas a horas mortas ao som do dinheiro que telinta nas mesas. A referência dos vultos misteriosos feita pela vizinhança permite a suspeita de reuniões secretas. O tinir do ouro, as risadas, o mesmo aspecto do boudoir em que estivemos não consentem duvidar-se que esta casa é uma caverna de jogo e de orgia.

As palavras que há pouco ouvi sugerem-me sobre estas suposições a mais tenebrosa suspeita.

O desgraçado que jaz aí dentro podia ter sido vítima de um homicídio, premeditado com o intuito de roubar-lhe a quantia que ele trazia consigo.

Ocorre uma contradição: na sugerida hipótese para que foram buscar um médico? Explicam-em o as palavras que ouvi. Os criminosos, que tinham propinado opio à sua vítima com o intuito de a roubarem, encontram iludido este projeto com o desaparecimento das notas que lhe supunham na algibeira. Nesta conjectura sobrevém-lhes um recurso extremo: procurar um médico que não possa denunciar o crime, mostrar-lhe o opio, e quererem por esta prova de zelo, de solicitude, de confiança na sua inocência, afastar de si a presunção do crime, e criar as dificuldades de um mistério! É possível que eu não atinja exatamente a verdade do que se passou. O indubitável porém é que o desaparecimento já constatado da soma que o assassinado trazia consigo não pode adunar-se dentro desta casa com a probidade e com a honra.

Depois disto é quase escusado dizer-te qual é a determinação que vou tomar. O meu vizinho prussiano é um homem um tanto fantástico, mas parece-me sincero e honrado. Vou fechar esta carta, subscritá-la e pedir-lhe que a lance no correio. Acharei facilmente meio de a passar para o quarto dele. Se conseguir arrombar completamente, sem que me pressintam, o tapamento que serve de fundo ao armário, passarei eu em vez de expedir a carta. No caso contrário, apenas se abrir aquela porta, precipito-me sobre a pessoa ou pessoas que me embargarem o passo, e abrirei o meu caminho como todo o homem de bem que em sua consciência delibera passar por cima de meia dúzia de miseráveis.

Se te achas aqui, encarcerado como eu, por Deus juro-te que nos veremos amanhã. Se estás solto, se receberes esta carta, e vinte e quatro horas depois não souberes de mim, escreve a Frederico Friedlann, posta restante, Lisboa. Ele te procurará no lugar que indicares e te dirá onde estou. — Adeus. — F


Nota. — Juntamente com a carta publicada achavam-se as seguintes folhas de papel escritas pela mesma letra das cartas do médico, anteriormente publicadas nesta folha:

F… não apareceu. No mesmo dia, dois dias e três dias depois de haver recebido a extensa carta que ele me dirigiu e de que enviei logo a primeira parte, depois as seguintes, a essa redação, procurei por todos os meios ter notícias dele. Foram inúteis todos os esforços que empreguei. Escrevi a Frederico Friedlann. Não houve resposta. Mandei ao correio e soube que ainda ali se achava a carta que lhe dirigi e na qual lhe aprazava uma entrevista.

Estou vivamente inquieto, sobressaltado, cuidadoso.

F… é um homem arrebatado, irascível, pundonoroso até o delírio. Receio do seu caráter e da violência das suas determinações uma explosão que teria podido talvez ser-lhe fatal.

Apresso-me porém a declarar-lhe, senhor redator, que discordo completamente da opinião dele enquanto à qualidade moral das pessoas com quem estivemos reunidos na casa onde encontramos o cadáver.

O mascarado alto, com quem tive ocasião de falar por mais tempo, não pode ser uma assassino cobarde. F… demorou-se pouco tempo conosco, não pôde atentar nos indivíduos que o rodeavam. Ouviu apenas uma frase, que para mim próprio é ainda inexplicável e terrível, e baseou nela a sua indignação e o seu ódio.

Eu tratei apenas com um desses homens — o mais alto — mas com este falei incessantemente durante todo o espaço de uma noite. Não podia estudar-lhe os movimentos da fisionomia, mas via-lhe os olhos grandes, luminosos, cintilantes. Ouvia-lhe a voz metálica, pura, clara, vibrante, obedecendo naturalmente, na modulação das inflexões, ao fluxo e ao refluxo dos sentimentos.

Nas discussões que tivemos, na conversação que travamos, nos diversos incidentes que acompanharam o inquérito de A. M. C., escutei-lhe sempre com interesse, com simpatia, algumas vezes com admiração, a palavra sincera, fácil, despresumida, espontânea, original, pitoresca sem literatismo, eloquente sem propósitos oratórios, — límpido espelho de uma alma enérgica, íntegra, perspicaz e sensível. Tinha arrebatamentos entusiásticos, indignações convictas, concentrações melancólicas, que se via provirem desse fundo de lágrimas, que todas as naturezas privilegiadamente boas e honestas têm no íntimo da sua essência. Pareceu-me finalmente um coração leal e honrado, e não é fácil enganar-se por este modo, depois de uma provação suprema e definitiva como aquela em que nos achamos, um homem com a minha experiência do mundo e a minha pratica dos fingimentos humanos. Estas são, senhor redator, as principais considerações que do princípio logo me impediram de tornar publico o nome do meu amigo violentamente retido em cárcere privado. F… é um homem conhecido, é quase um homem célebre; em Lisboa ninguém há que não conheça o seu nome entre os escritores mais aplaudidos, ninguém que não distinga a sua figura altiva, esmerada, picante, entre os vultos extremamente uniformes dos passeios, das salas e dos teatros.

Se eu comunicasse à polícia o desaparecimento do meu amigo, é quase seguro que ela encontraria meio de o descobrir. Mas não equivaleria isto a denunciar simultaneamente como criminosos o mascarado alto e os seus companheiros que eu todavia considero inocentes?

A carta de F…, apesar da revelação que encerra sobre o desaparecimento das 2:300 libras, confirma por outro lado a convicção em que eu me acho.

Na carta de F… encontra-se o seguinte período:


«Occorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era efetivamente ou se não era um amigo íntimo que eu tinha ao meu lado: arrancar-lhe o relógio: bastar-me-hia apalpá-lo, ainda vendado como eu estava, para reconhecer o dono. A ser o indivíduo que eu supunha, a caixa do relógio teria a lisura do esmalte e no centro a saliência de um brasão.»

Ora o relógio a que nestas linhas se alude, se bem lembrado está, é exatamente o mesmo que descrevi na segunda carta que enviei a esse periódico, o mesmo que usava o mascarado que ia sentado defronte de mim na carruagem, e que eu lhe vi por algum tempo fora da algibeira do colete, suspenso na corrente. Logo, o mascarado que conduziu F… ao quarto em que ele se acha preso, é efetivamente um amigo dele, íntimo e particular.

Posso eu, sem semear remorsos que mais tarde entenebrecerão talvez a minha vida com uma sombra eterna, denunciar à polícia uma particularidade, um nome, uma circunstância positiva, que a ponha no encalço deste crime e no descobrimento das pessoas, inocentes ou culpadas, que circulam fatalmente em torno dele?

As mesmas notícias que lhe tenho dado, as cartas que precipitadamente comecei a escrever-lhe, e que hoje, posto que acobertado pelo anônimo, me vejo na obrigação moral de concluir e desenlaçar, não serão já perante a severidade incorruptível, despreocupada e fria dos homens de bem, uma traição aos imprescritíveis deveres da amizade, um agravo à inviolabilidade do sigilo, uma ofensa a esse culto íntimo que se baseia na delicadeza, no melindre, no primor, — culto que para as almas honradas constitui uma parte dos princípios supremos da primeira das religiões — a religião do caráter?

Mas podia também calar-me? ficar mudo, impassível, inerte, neutro, diante deste sucesso obscuro mas tremendo? Podia acaso aceitar na impassibilidade e no silêncio a responsabilidade terrível de um homicídio tenebroso, do qual sou eu a única testemunha com iniciativa, com liberdade, com faculdade de ação?…

Decidam-no as pessoas que por um momento quiserem imaginar-se nas circunstâncias excepcionais e únicas em que eu estou.

Na onda de conjecturas, de planos, de determinações, de obstáculos em que me achei envolvido, assoberbado, só, escondido, inquieto, nervoso, sem um único momento que perder, uma só coisa me ocorreu, possível, clara, solvente: publicar anonimamente o que me sucedera, entregar por este modo à sociedade a história da minha situação e esperar dos outros, do público, a solução do problema que eu não sabia resolver por mim.

Nem uma palavra de conselho, de análise, de critica!

Estou profundamente triste, abatido, doente. Preciso de liberdade. Não posso ficar eternamente imóvel, como um condenado, com o pesado fuzil de um segredo soldado a um pé.

Dois dias depois de receber esta minha carta, senhor redator, terei partido para fora do país. As ambulâncias do exército francês precisam de cirurgiões. Vou alistar-me como facultativo. O meu país dispensa-me, e eu, como todo o homem na presença dos infortúnios irremediáveis, sinto a doce necessidade de ser útil. Fica sabendo o meu destino. Um dia saberá o meu nome.

Despedindo-me — seguramente para sempre — dos seus leitores, cuja atenção tenho largamente prendido com a narrativa deste caso lúgubre, seja-me permitido acrescentar uma derradeira palavra:

A. M. C., cujo nome não ouso delatar escrevendo-o por extenso nesta página, A. M. C., que eu não incriminei nem denunciei, apesar de tudo quanto em contrário quis alegar o amigo dele que sob a letra Z. veio defendê-lo neste mesmo lugar, A. M. C., quaisquer que sejam as causas que o levaram a intervir nas circunstâncias que rodeiam o crime, conhece-o interiormente, tem o fio do trama que eu debalde procurei achar.

Se estas linhas chegarem aos olhos desse moço, uma coisa lhe peço em nome da sua honra e da sua dignidade, em nome da honra e da dignidade das pessoas envolvidas em tão estranho sucesso. Procure no correio uma carta que lhe dirijo nesta mesma data. Nessa carta verá quem eu sou, onde poderá enviar as suas cartas ou ver-me e falar-me pessoalmente. Se a sua idade, se as condições da sua posição na sociedade, se os interesses da sua carreira, a tranquilidade da sua família, a incompetência da sua autoridade, ou outra qualquer razão o impedirem de acompanhar este acontecimento até à última das suas consequências, arrancando a um tal mistério a secreta verdade que ele envolve, dirija-se a mim, colaboraremos juntos nessa obra, que tenho por meritória e honrada. Eu aceitarei clara e abertamente para todas as consequências e para todos os efeitos a responsabilidade que daí provenha, e terei meio de salvar o seu nome, a sua pessoa e a sua honra de qualquer suspeita que o ensombre ou o macule.

Enquanto a ti, meu querido e meu honrado F…, não creio que sejas vítima de uma emboscada traiçoeira e indigna! O teu único perigo está, a meu ver, no teu impaciente melindre, nos teus delicados escrúpulos, no teu valor, finalmente, e no teu brio.

Que te matassem cobardemente no cárcere clandestino que há pouco tempo ainda tu iluminavas com a tua pachorra e a tua alegria, não pode ser. Que a esta hora tenhas sido obrigado a jogar a tua vida trocando em desagravo de honra uma estocada ou um tiro com algum dos teus misteriosos comensais, isso acho lógico, e é possível.

Punge-me não sei que vago e triste pressentimento… Meu pobre F…! Se estará destinado que não nos tornemos a ver! Se o dia fatal em que regressamos ambos de Sintra, descuidados, contentes, suspirando com as nossas alegrias, sorrindo com os nossos infortúnios, terá acaso de ser o último dessa doce convivência que por tanto tempo nos juntou!…

E são as amarguras alheias, são as desgraças dos outros que nos arrastam envolvidos no turbilhão implacável e terrível da crua solidariedade humana!

Que remédio?!

Se a vida é isto, aceitemo-la corajosamente como ela é, e avante! aprenda-se a ser desgraçado, visto que é essa a mais segura maneira de se ser feliz!

Fim do capítulo XII

O capítulo XIII sai segunda-feira, 09 de novembro às 20:00

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