Pular para o conteúdo
Mundo Mundano
O Mistério da Estrada de Sintra

Eça de Queirós e Ramalho Ortigão

Capítulo

XI

De F... ao médico

04 de nov. de 2026 · 6 min de leitura

❦

A cama do alemão tinha ficado, como disse, por baixo do meu buraco de observação. O meu vizinho deitou-se e soprou a vela. O quarto ficou às escuras, e eu senti os colchões que rangiam com o peso do corpo que se ajeitava para dormir.

— Ah! tua amas o murmúrio dos espíritos invisíveis?… exclamei eu, dirigindo-me mentalmente ao filósofo que me ficava do outro lado do muro. Aprazem-te as ondulações sonoras das moléculas da vida animal que vagueiam dispersas no espaço, procurando o sopro misterioso que as condense para entrarem na corrente dos seres vivos? Queres encadear ao teu espírito esses elos informes e incoercíveis, que ligam o mundo das coisas conhecidas ao mundo dos seres ignotos? Ora vamos lá a ver como tu empregas as tuas faculdades de medium…

E pensando isto, bati-lhe com os nós dos dedos na parede três pancadinhas secas, metodicamente espaçadas, como as dos sinais maçônicos.

Senti roçar a mão dele pelo papel que forrava o muro, como quem procurasse apalpar algum sinal do rumor que ouvira.

Entrei então a repetir com sucessiva frequência o rebate que lhe dera percorrendo diferentes pontos da parede que servia de fundo ao armário.

Percebi que ele se sentava na cama. Ouvi estalar um fósforo. Acendeu-se a luz. Parei. Houve uma pausa, durante a qual me conservei silencioso e imóvel. O meu vizinho apagou finalmente a luz ao cabo de alguns minutos, e eu recomecei a bater devagarinho e repetidamente como primeiro fizera. Ele, tendo escutado por algum tempo às escuras, acendeu outra vez a vela e começou a examinar o espaço da parede, junto da qual lhe ficava a cama.

No momento em que a chama da vela perpassava na mão dele por defronte do meu buraco, soprei-lhe de repente e apaguei a luz.

O alemão, que se achava de joelhos em cima da cama a revistar a parede, expediu um pequeno grito, que me pareceu mais de surpresa que de terror, com quanto o acompanhasse um estrondo pesado e extremamente significativo. O que produzira esse estrondo fora o baque do corpo dele, caindo da cama abaixo.

Logo depois ouvi a voz do vizinho perguntando com decisão e firmeza:

— Quem está aí?

Respondi-lhe:

— Sou eu.

— Quem és tu?

— E tu quem és?

— Frederico Friedlann, cidadão prussiano.

— Ah! disse eu.

— Viajo por conta da primeira fabrica de produtos químicos de Buda Pesth, os quais sou encarregado de tornar conhecidos dos grandes industriais da Europa.

— Bem! observei.

Ele continuou impassivelmente:

— Contou-me um judeu meu amigo que havia em Lisboa três prédios de que ele tinha notícia, os quais se achavam abandonados depois de algum tempo de terem ganhado fama de serem habitados por almas do outro mundo. Resolvi morar sucessivamente nas casas que ele me indicou e é esta a primeira que hábito. Componho um livro com investigações a respeito do espiritismo. Poderei saber agora a quem me dirijo?

— Pois não! tornei-lhe eu. Chamo-me fulano, e vivo dos rendimentos das minhas propriedades, ora viajando, ora residindo em Lisboa, e ocupando-me de quando em quando com a política ou com a literatura, quando não tenho outra coisa menos insípida e menos inútil em que agitar a minha ociosidade e o meu tédio. Não sou espiritista.

— Pois faz mal! O espiritismo é um sistema e pode bem suceder que venha ainda a ser uma religião.

— Puff! exclamei eu rindo.

— O quê! continuou ele. O materialismo, guiado de um lado pelas conquistas das ciências físicas e naturais e de outro lado pelo relaxamento dos costumes contemporâneos, e pela depressão sucessiva e assustadora da moral, vai comendo no campo da filosofia o espaço não já muito vasto em que residia a fé. Novas crenças e novas doutrinas virão sucessivamente substituir as crenças e as doutrinas mortas por que se regulava o sobrenatural. O homem, que, segundo todas as probabilidades, não poderá nunca prescindir do maravilhoso, desse atrativo supremo da sua imaginação, irá então naturalmente buscar ao espiritismo, modificado e aperfeiçoado pela ciência futura, a teoria de uma tal ou qual sobrevivência que o lisonjeie, e a base de correlações ainda não estudadas dos seres que existem com aqueles que os precederam e com os que se lhes hão de seguir. Os espiritistas de hoje serão de entre todos os filósofos contemporâneos que não querem aceitar em absoluto o dogma estéril e desconsolador da matéria omnipotente, os únicos que hão de colaborar na filosofia do futuro.

— Ora há de me dar licença que lhe pergunte uma coisa…

— Tem-me às suas ordens.

— Sem com isto querer fazer agravo ao seu juízo!

— Estimarei muito satisfazer a sua curiosidade, qualquer que seja a natureza dela.

— Acredita em alguma das coisas em que esteve aí falando o homem que veio ajudá-lo a mudar a cama?

Esta pergunta era capciosa. Eu queria desenganar-me se estava falando com um doido, com um visionário, com um monomaníaco, ou simplesmente com um homem de espírito extravagante, com um excêntrico.

— Eu não creio nem também descreio de coisa alguma que ouço, responde-me ele. É meu sistema admitir tudo quanto esteja para se provar e duvidar de tudo aquilo que me apresentem como coisa positiva. É o único meio prudente de nunca nos afastarmos muito da verdade. Se escutou a conversa de há pouco, tem uma parte da história desta casa. Neguei quanto me disse o homem que esteve aqui porque me obriguei com o senhorio do prédio a desvanecer com as minhas informações o anátema que pesa sobre a sua propriedade. A verdade é que tenho ouvido distintamente há duas noites consecutivas um rumor insistente e prolongado semelhante aos estalidos que produz ao atear-se uma fogueira de carvão, e tenho aqui sobre uma banca um busto de Allan Kardec que, sem eu poder explicar como nem porquê, se move, sem que ninguém lhe toque, do centro da mesa em que o coloquei para uma das extremidades dela. O pó aglomerado em volta da base do busto, e que eu tenho o mais escrupuloso cuidado em não espanar nunca, vai deixando sucessivamente sobre a superfície da mesa o vestígio desse movimento vagaroso, lento, quase imperceptível, mas progressivo e constante. Nesta porta ao pé da qual coloquei hoje a cama, ouço em cada noite, ora por duas, ora por três vezes, uma argolada perfeitamente clara e distinta. Abro imediatamente a porta (mudei a cama para este ponto a fim de poder fazê-lo do modo mais rápido), fica sempre inexplicável para mim a razão porque se levanta a argola do ferrolho e bate de per si mesma na porta!

Todas estas coisas eram asseveradas pelo prussiano com a ênfase da sinceridade e da convicção mais profunda!

— E desta casa de cá, observei-lhe eu, que tem ouvido? o que sabe? que lhe consta?

— Eu lhe digo…

— Sinceramente!

— Por mim pessoalmente nada tenho ouvido. O inquilino que me precedeu conta que ouvia no silêncio da noite um rumor confuso de vozes, o estalar de risadas e o telintar de dinheiro. Alguns vizinhos têm visto entrar vultos misteriosos. Tudo isto porém se explica do modo mais natural deste mundo.

— Qual é então o seu juízo, vejamos?

— É evidentemente…

— Diga! diga!

— Presumo eu, pelo menos…

— Vamos! sem rodeios, francamente!

— De duas uma: ou uma loja maçônica, ou uma casa de jogo.

Fim do capítulo XI

O capítulo XII sai sexta-feira, 06 de novembro às 20:00

Faltam …

Quer ser avisado assim que sair?

Compartilhe:WhatsApp

Dica: selecione um trecho do texto para criar um card de citação.