Eça de Queirós e Ramalho Ortigão
Capítulo
X
De F... ao médico
02 de nov. de 2026 · 6 min de leitura
Havia dois homens que arrastavam um grande leito de madeira do lugar em que ele estava para ao pé da parede que divide a casa em que me acho daquela em que se passava a cena que descrevo, e exatamente para junto do lugar em que eu acabava de abrir o buraco que me servia de olho e de orelha.
Um desses homens dizia assim:
— Será o que muito bem quiser, mas eu é que não torno a vir cá a andar aos trambulhões com os moveis à hora da meia noite.
— Há de ter muita razão de queixa! tornava o outro. Dou-lhe uma libra para me ajudar, quero saber se não é melhor isto que estar lá em baixo estendido ao pé da manjedoura, à espera que chegue o trem para ir tratar dos cavalos, a enfastiar-se sem ganhar vintém.
Aquele que dizia estas palavras, conquanto se expressasse claramente, tinha todos os defeitos de pronúncia que distinguem os estrangeiro que fala português. Pela aspiração especial de certas vogais e pela contração hábil com que pronunciava os aa, era por certo alemão.
O que primeiramente falara, prosseguiu:
— É bom lucro… Parece que é bom lucro, mas eu para mim não o quero. E olhe que não encontra seis homens aqui na rua que entrem cá de noite, a estas horas, ainda que os pese a oiro!
— Para mudar uma cama!
— Não é pela cama, é por ser a casa que é!
— Ora adeus! que tem a casa?!…
— Não tem nada! É uma graça! Ela é de tal casta que o senhorio teve-a quatro anos por alugar, foi sempre baixando na renda e por fim dava-a já de graça e não tinha alma viva que lhe pegasse! A última gente que cá morou esteve só duas noites, e foi-se daqui tolhida com as coisas que lhe apareceram e com as trapalhadas que ouvia… Cruzes demônio! cruzes diabo!
— Petas! histórias da vida!
— O senhor! não me diga que são petas! Pois eu não vi a família!?… não estive com eles!? Fugiram de noite, fugiram à segunda noite que dormiram cá, estarrecidos de medo.
— Então que viram eles?
— Elles não viram nada.
— Então aí tem!
— Não viram, mas ouviram.
— Haviam de ouvir boas coisas!
— Ouviram, sim senhor, ouviram. E não foi só a eles que sucedeu isso, foi a todos quantos cá moraram. E era gente de bem, que não mentia, que não tinha precisão de mentir, que tinham pago a sua renda e que ficaram com ela perdida!
— Então que ouviam eles?
— O senhor bem o sabe!… O que eles ouviam? Ouviam pancadas nas portas, quando ninguém batia, nem lhes tocava! Ouviam espirrar o lume e estalarem os carvões exatamente como se estivessem abanando à fogueira, quando estava a cozinha só e o fogão apagado! Sentiam o bater das asas de um pássaro que principiava a voar pelas casas apenas se apagavam as luzes; ouviam-o arquejar e bufar aproximando-se cada vez mais dos que estavam deitados, pairando tão rente das camas que se lhe sentia o estremecer das penas, o calor de lume que ele deitava do bico e ao mesmo tempo o frio de neve que fazia a mover as azas!
— Ora adeus! tinham ouvido falar nisso e pareceu-lhes que sentiam o tal pássaro, de que já falavam os inquilinos anteriores, os quais também tinham ouvido falar nele, não havendo ao fim de contas ninguém que verdadeiramente o tivesse ouvido.
— Então o senhor não sabe porque foi que eles fugiram, os últimos que estiveram cá, faz agora quatro anos?
— Ouvi falar nisso, mas por alto, não me deram pormenores.
— Eis aí está porque o senhor não acredita! A coisa foi esta: Elles eram gente pobre mas honrada: marido, mulher e uma filha de seis anos. Para o que desse e viesse dormiam todos juntos na mesma sala. A pequenita a quem eles não contavam nada por causa do medo, estava numa caminha a um lado. Dormiam com luz na lamparina, e como trabalhavam muito de dia e estavam cansadíssimos à noite, lá pegavam no sono apesar do barulho das faúlas do fogareiro e das argoladas nas portas. Vai senão quando, à segunda noite que passavam cá, acordam aos gritos da criança. Tinha-se apagado a luz. Acenderam-na a toda a pressa. A porta do quarto estava fechada por dentro. Os fechos das janelas achavam-se corridos. No quarto não havia mais ninguém. Mas a roupa da cama da criança estava caída a dois ou três passos de distância do berço em que ela dormia, e a pequenita, nua, transida de medo, branca como o travesseiro e tremendo como varas verdes, disse, quando lhe chegou a fala que teve perdida por um bocado, que sentira umas coisas como os pés de uma galinha muito grande que se lhe pousavam na cama; que se achara depois descoberta e ouvira umas coisas suspiradas envoltas em soluços e beijos, mimos que metiam medo e que ela não entendia, enquanto um peito coberto de penas se lhe roçava pelo seio nu. A mãe então vestiu-lhe à pressa uns fatinhos, embrulhou-a num chale, estreitou-a nos braços, pôs-se a dar-lhe beijos e acalentá-la com o bafo, e saiu para a rua aterrada e como doida. O homem, que era valente e destemido, correu a casa toda com luz e sem luz, metendo-se por todos os cantos e recantos, rangendo os dentes e picando as paredes enfurecido com uma faca de ponta que levava em punho. Não apareceu ninguém! Ninguém podia ter saído! Ninguém podia ter entrado! No dia seguinte foi levar a chave do prédio ao senhorio, dizendo-lhe que se algum dia tivesse dinheiro lhe compraria esta casa para ele mesmo a deitar abaixo com um picão e a machado, para lançar o fogo a quanto pudesse arder, e calcar depois aos pés e salgar o monte de cinzas que ficasse no chão.
— Pois senhor, eu nenhuma dessas coisas tenho ouvido, e é esta a segunda noite que durmo aqui.
— Gabo-lhe o gosto! E não tem medo?
— Nenhum.
— Por isso por aí dizem do senhor o que dizem!
— Então que dizem por aí de mim?
— Dizem, com o devido respeito, que o senhor é um alemão da Moirama e que tem partes com o demônio.
— Mais um bocadinho para trás, que eu o ajudo! exclamou o estrangeiro, mudando de tom.
— Isto assim?
— Ainda mais… um quase nada… até ficar a cabeceira unida à ombreira da porta… Basta!
— Não quer mais nada?
— Mais nada. Aqui tem a sua libra e leve dali uma daquelas velas para que o avejão lhe não apareça na escada ao apanhá-lo às escuras.
— Não o diga a rir, que eu pela minha parte não me rio! o senhor gosta…
— A falar-lhe a verdade gosto!
— Seu proveito! Olhe lá: quando se aborrecer com as almas que andam cá, veja se passa aí para a casa que fica ao lado!
— Bem me queria a mim parecer que a casa do lado também tem…
— Se tem! Essa então é o diabo, é o próprio diabo que lá mora!
O homem que viera ajudar à mudança da cama acendeu a luz e desceu a escada. O alemão ficou só, fechou a porta e principiou a despir-se para se deitar.
O diálogo que eu acabava de ouvir tinha-me impressionado singularmente e despertado em mim o mais curioso interesse.
Sem procurar diretamente indagar coisa alguma, começava a entrar pelo modo mais estranho no conhecimento de factos que, posto que deturpados pela superstição ou pela ignorância, explicariam de certo o desfecho a que viemos assistir e a presença do cadáver na sala em que o fomos encontrar.
Agora nós, meu interessante e precioso vizinho.
O capítulo XI sai quarta-feira, 04 de novembro às 20:00
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