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Mundo Mundano
O Mistério da Estrada de Sintra

Eça de Queirós e Ramalho Ortigão

Capítulo

IX

De F... ao médico

30 de out. de 2026 · 7 min de leitura

❦

Julho 21 à 1 hora da noite.

— Meu querido amigo.

— Ignoro se estás em tua casa, para onde te dirijo esta carta, ou se contínuas, como eu, permanecendo aqui em cárcere privado. Em qualquer dos casos, recebidas agora ou encontradas mais tarde, estas letras ficarão encerrando para aquele de nós que houver de as ler a lembrança proveitosa das horas mais extraordinárias da nossa vida.

Escrevo mais para coordenar e fixar na memória estes momentos do que para empregar noutro destino puramente hipotético esta carta. Será uma página das minhas confidências que entregarei à discrição ou ao acaso da posta, reservando-me o direito de lhe pedir que mas restitua a seu tempo.

Não tornei a ter notícias tuas desde que nos separamos ontem à noite, pouco tempo depois de termos entrado na sala em que estava o cadáver. O mascarado que se encarregara de me conduzir ao quarto onde me acho deu-me o seu braço e disse-me ao ouvido um nome de mulher, a indicação de uma rua e o número de uma porta. Era o nome da pessoa que sabes e a designação da casa em que ela mora! Creio que involuntariamente estremeci, mas consegui dizer serenamente:

— Não o compreendo.

Este indivíduo era o mesmo que na carruagem se conservara sempre calado, o mesmo que na sala me observava com atenção e desconfiança.

Aquela estatura, aquela fala, aquela voz, posto que apenas perceptível ao meu ouvido, não eram novas para mim.

Ele respondeu falando-me ainda mais baixo:

— Não poderá sair daqui antes de dois ou três dias. Veja se precisa de escrever uma carta ou de mandar um recado.

Passou-me pela mente uma ideia a respeito daquele homem… Se fosse…

Ocorreu-me que teria um meio de desenganar-me se era efetivamente ou se não era um amigo íntimo que eu tinha ao meu lado: arrancar-lhe o relógio; bastar-me-hia apalpá-lo, ainda vendado como eu estava, para reconhecer o dono. A ser o indivíduo que eu supunha, a caixa do relógio teria a lisura do esmalte e no centro a saliência de um brasão.

— Escreverei duas linhas, disse eu; quererá dar-me um lápis?

Tínhamos chegado ao quarto que me era destinado e eu desvendei-me ao tempo em que ele saia prometendo trazer-me o necessário para escrever. O indivíduo que voltou com papel e penas não era o mesmo que acabara de sair. Assim tinha eu perdido a ocasião de confirmar uma suspeita ou de desvanecer uma duvida.

Em todo o caso escrevi duas linhas ao meu criado serenando-o com relação ao meu desaparecimento.

— Mais nada? interrogou o desconhecido tomando o meu bilhete.

— Nada mais.

Um sentimento de delicadeza e uma sombra de desconfiança impediam-me de escrever diretamente à pessoa a quem o mascarado se referira.

Fecharam a porta e fiquei só.

Achei-me num quarto de interior, bastante espaçoso, mas sem janela. A um lado havia um lavatório; sobrepostas a um canto três malas de viagem, de coiro de Varsovia com pregos de aço, estreladas com senhas de caminhos de ferro, de hotéis e de paquetes; a que estava por cima das outras tinha em grandes letras pretas sobre uma tira de papel este dístico: Grand-Hotel-Paris; uma das senhas era dos paquetes ingleses da carreira da India. Para outro lado do quarto havia uma cama. Completava a simples guarnição deste aposento um sofá forrado de marroquim verde, colocado no meio da casa defronte de uma ampla mesa em que estava posta a minha ceia à luz fulgurante de um grande candeeiro com largo abat-jour.

Queres que te confesse a verdade? Agradou-me aquele recolhimento, aquele sossego, aquela solidão, depois da grande sobre-excitação em que me tinha achado!

Estirei-me no sofá, pus-me a olhar maquinalmente para o círculo da luz trepidante projetada pelo candeeiro e contornada no tecto pela abertura do abat-jour, e começaram a desafogar-se-me os comprimidos espasmos do coração em bocejos longos acompanhados de estremecimentos nervosos, que me convidavam suavemente ao repouso. A minha imaginação ocupada num trabalho inconsciente, semelhante ao dos sonhos, ia tirando no entanto do caso que eu presenciara as ramificações mais ilógicas e mais fantásticas. Os sucessos por que passamos desde a estrada de Sintra até à minha entrada neste quarto apareciam-me redemoinhando convulsamente no ar como um enorme enigma figurado, cujos objetos tumultuavam impelidos pelos pontapés de diabinhos sarcásticos, que se riam para mim e me deitavam de fora as linguazinhas em brasa.

Fui caindo molemente num despego languido, fecharam-se-me os olhos, adormeci.

Ao acordar, depois de um sono breve mas sossegado e reparador, encarei na ceia que reluzia aos meus olhos.

Havia sobre a mesa um pão, uma caixa de lata com sardinhas de Nantes, uma terrinazinha de foie gras, uma perdiz, uma fatia de queijo e três garrafas de vinho de Bourgogne, lacradas de verde; junto destas, quatro garrafas de soda. Na argola de prata do guardanapo estava passado o saca-rolhas. Sobre uma bandeja de metal erguia-se um feixe de charutos cor de chocolate, luzidios, gordos, apertados nas extremidades com duas fitas de seda carmesim. Em cima da caixa das sardinhas achava-se colocado o instrumento destinado a abri-la. O copo era de cristal finíssimo, o garfo de prata dourada, a faca de cabo de madrepérola, os pratos de porcelana brancos, cercados de um estreito filete dourado e verde. Atirei rapidamente com os pés para o chão. Sentei-me no sofá, senti a fome encavalar-se-me no dorso, carregar-me na cabeça para cima da ceia, cingir-me a cinta com as suas pernas esgalgadas e cravar-me no estômago vazio os acicates da gula.

Ao mesmo tempo ergueu-se-me do outro lado da mesa a abantesma do susto, cravando os olhos em mim e espalmando por cima das iguarias a sua mão descarnada e trêmula com um gesto proibitivo e solene. Atarantado, perplexo, escutei então dentro de mim um breve diálogo semelhante àqueles que Xavier de Maistre travava de quando em quando com a besta, na sua viagem à volta do quarto.

Havia uma voz pausada e grave que dizia:

— Attenta no que fazes, temerário! abre teus olhos, inconsiderado mortal! Essa perdiz, cujo peito insidioso e pérfido está lourejando a teus olhos, foi apimentada com arsênico. Aquele Chambertin, que te espera como uma onda da lagoa Stigia, emboscada por detrás daquele letreiro envernizado, aparentemente simples, elegante, convidativo, mas em verdade tenebroso e fatal como o dístico do festim de Balthazar, aquele vinho, que te oferece um beijo refalsado e fementido, está destemperado com ácido prússico. As trufas, lúbricas, venais, devassas, envoltas nesses fígados de pato, estão empapadas nos temperos letais da cozinha dos Borgias!

A outra voz, insinuante e meiga, dizia numa vaga melódia de sereia:

— Come, se tens fome, estúpido! Estás com medo do papão, maluco?… Põe os olhos nesse lacre: não será um penhor seguro da pureza do liquido que ele tapa a marca desse abonado sinete? Não vês hermeticamente fechada, chumbada e garantida com os mais especiais lavores a lata dessas sardinhas pescadas nas costas de França e cozinhadas há seis meses em Marselha? Não vês religiosamente grudada e selada com as etiquetas insuspeitas e sagradas da acreditada casa Chevet essa terrina de foie gras? Supões acaso, ó parlapatão, que meio mundo se conjurasse para te arrancar essa vida inútil? Come, bebe e dorme; aproveita nos braços da sabedoria as horas gostosas da solidão com que te brinda o acaso. Deleita-te conversando depois contigo e repousando-te no seio tépido da melancolia, dessa deliciosa fada que só aparece evocada pelos namorados e pelos solitários, e que é na terra a irmã mais nova da tristeza, a irmã gatée, a irmã feliz!

Eu no entanto havia cortado a caixa de sardinhas, desgrudado a tampa da terrina e desarrolhado uma garrafa de vinho e uma garrafa de soda que misturara num copo.

Pus-me por fim a comer com apetite, com valor, com delícia, com uma espécie de bestialidade voluptuosa, sentindo vagamente adejarem em volta de mim os espíritos benéficos do cárcere que bafejaram as prisões de Silvio Pellico.

É singular isto: achava-me bem!

Depois da ceia acendi um charuto e comecei a passear no quarto, dizendo comigo:

— Visitemos o país!

Na parede que ficava ao lado da porta por onde se entrava havia uma outra porta. Examinei-a. Estava apenas segura com um ferrolho exterior. Afastei a cama encostada à parede em que se achava esta porta e abri-a.

Era uma armário na espessura do muro, largo, profundo, dividido a meia altura por um prateleiro espaçoso e sólido.

Ocorreu-me que ao fundo do armário haveria talvez um tabique delgado através do qual me seria possível escutar o que se passasse na casa contígua.

Penetrei no armário, estendi-me no prateleiro, escutei. Do outro lado havia um ruido volumoso e maciço. Parecia que se estava arrastando um móvel pesado e grande.

O fundo do armário era efetivamente formado por um tapamento franzino. Era possível que tivesse havido primitivamente uma porta no lugar em que se fizera o armário. Havia um ponto em que a argamassa caíra, e eu via diante de mim um pedaço de ripa atravessada diagonalmente e descarnada da cal.

Peguei no saca-rolhas, e no lugar indicado fui esburacando devagarinho e progressivamente o cimento do muro, até operar um orifício imperceptível, pelo qual me era dado ver a luz e ouvir distintamente o que se dizia do outro lado.

Eis-aqui o que às onze horas e meia da noite se estava passando no quarto contíguo àquele que me serve de prisão:

Fim do capítulo IX

O capítulo X sai segunda-feira, 02 de novembro às 20:00

Faltam …

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