Um roteiro de viagem por Recife, cenário do filme “O Agente Secreto” que conquistou o Globo de Ouro

Recife ganhou projeção internacional ao se tornar o cenário principal de “O Agente Secreto”, filme de Kleber Mendonça Filho que fez história ao conquistar o Globo de Ouro de melhor filme em língua não inglesa e garantir a estatueta de melhor ator em filme de drama para Wagner Moura.

Mais do que pano de fundo, a capital pernambucana assume papel central na narrativa, revelando ruas, prédios e espaços públicos carregados de memória, muitos deles diretamente ligados à construção histórica e política do Brasil.

Ambientado durante a ditadura militar dos anos 1970, o longa acompanha Marcelo, professor universitário interpretado por Wagner Moura, em uma jornada marcada por perseguição, tensão e deslocamento.

Para quem deseja ir além da tela, Recife oferece a oportunidade de caminhar pelos mesmos cenários do filme, transformando a experiência cinematográfica em um roteiro turístico que mistura cultura, arquitetura, memória política e identidade urbana.

Parque Treze de Maio

O Parque Treze de Maio, localizado no bairro de Santo Amaro, na região central de Recife, é um dos espaços públicos mais tradicionais da cidade. Com cerca de 3.700 metros quadrados, o parque reúne áreas arborizadas, fontes de água, esculturas e espaços de convivência que atravessaram diferentes fases da história recifense. No filme, o local aparece em uma das cenas mais marcantes, que contrasta o cotidiano urbano com a tensão política da narrativa.

Atualmente, o parque mantém uma função social importante, com áreas destinadas a crianças, ponto de leitura e espaços de descanso. Caminhar pelo Treze de Maio permite observar como um espaço público pode acumular múltiplos significados ao longo do tempo, transitando entre lazer, memória e representação artística, exatamente como ocorre no filme.

Cinema São Luiz

O Cinema São Luiz é um dos grandes símbolos culturais de Recife e figura entre os cinemas de rua mais emblemáticos do Brasil. Localizado na Rua Aurora, no bairro da Boa Vista, o espaço foi inaugurado em 1952 e mantém até hoje sua vocação como centro de exibição cinematográfica e eventos culturais. Sua arquitetura em estilo Art Déco chama atenção logo na chegada.

No contexto de “O Agente Secreto”, o cinema reforça a atmosfera de época e dialoga com a relação entre cultura e resistência. Tombado pelo Governo do Estado em 2008, o São Luiz preserva não apenas sua estrutura física, mas também a memória afetiva de gerações de recifenses. Visitar o local é compreender a importância do cinema como espaço de encontro, debate e expressão política.

Ginásio Pernambucano

Fundado em 1825, o Ginásio Pernambucano é o colégio público mais antigo em atividade no Brasil e ocupa o mesmo prédio desde sua criação. Inicialmente chamado de Liceu Provincial de Pernambuco, o espaço atravessou o período imperial, a República e diferentes regimes políticos, sempre mantendo papel central na formação intelectual do estado.

No filme, o Ginásio Pernambucano foi utilizado como locação para cenas ambientadas em repartições públicas, explorando corredores, salas e o pátio interno. O local já formou nomes fundamentais da cultura brasileira, como Clarice Lispector, Ariano Suassuna e Celso Furtado. A visita permite perceber como a arquitetura educacional também pode servir como cenário simbólico para narrativas sobre poder, vigilância e burocracia.

Chá Mate Brasília

A lanchonete Chá Mate Brasília, inaugurada em 1984, é um ponto tradicional no bairro de Santo Antônio. Localizada na Rua Siqueira Campos, o espaço preserva uma estética que remete a décadas passadas, o que chamou a atenção da equipe do filme para compor cenas que antecedem momentos de maior tensão.

Além do interior, a própria rua onde a lanchonete está situada serviu de cenário para sequências de perseguição. A região concentra bares, comércios populares e intenso fluxo urbano, oferecendo ao visitante uma experiência autêntica do centro recifense. Parar no Chá Mate Brasília é também um convite para observar o cotidiano que se mistura à narrativa cinematográfica.

Rua da União e Rua do Riachuelo

As ruas da União e do Riachuelo preservam uma estética que remete a um Recife de outras décadas, com casas e prédios de pequeno porte, fachadas antigas e calçadas estreitas. Esses elementos visuais contribuíram para a ambientação das cenas de perseguição e deslocamento do personagem principal.

Percorrer essas ruas é mergulhar em um trecho da cidade onde o tempo parece correr de forma diferente. A escolha dessas locações reforça o compromisso do filme em dialogar com a paisagem urbana real, sem artificialismos, valorizando a memória arquitetônica e social de Recife.

Edifício Teresa Cristina e Vila Santo Antônio

O Edifício Teresa Cristina e a Vila Santo Antônio aparecem em cenas que ampliam a sensação de vigilância e deslocamento constante vivida pelo personagem de Wagner Moura. São construções que representam diferentes camadas sociais da cidade, evidenciando contrastes e tensões.

Esses espaços ajudam a compreender Recife como uma cidade marcada por diversidade urbana, onde áreas residenciais, prédios institucionais e zonas populares coexistem em proximidade. Para o visitante, o trajeto entre esses pontos revela uma cidade complexa, que vai além dos cartões-postais tradicionais.

Edifício Ofir e antigo prédio da Folha de Pernambuco

O Edifício Ofir e o antigo prédio do Jornal Folha de Pernambuco também foram utilizados como locações, reforçando o vínculo entre imprensa, poder e memória política. Esses espaços evocam o papel da comunicação durante períodos de repressão e controle institucional.

Visitar esses prédios é uma forma de refletir sobre a importância da imprensa e da informação em contextos autoritários. O filme utiliza esses cenários para criar camadas de significado que dialogam diretamente com a história recente do Brasil.

Recife como personagem

Em “O Agente Secreto”, Recife não é apenas cenário, mas personagem ativo. A cidade influencia o ritmo da narrativa, molda a experiência do protagonista e dialoga com o espectador de forma silenciosa, porém constante. Ruas, praças e prédios funcionam como testemunhas de um período histórico marcado por medo e resistência.

Para quem percorre esse roteiro, a experiência vai além do turismo tradicional. Trata-se de um convite à observação atenta, à escuta da cidade e à compreensão de como o espaço urbano pode carregar marcas profundas de contextos políticos e sociais.

Conclusão

Explorar Recife a partir das locações de “O Agente Secreto” é uma forma singular de conhecer a cidade, unindo cinema, história e urbanismo. Cada ponto do roteiro revela não apenas um cenário de filmagem, mas fragmentos da memória coletiva brasileira, preservados em ruas, prédios e espaços públicos.

Ao transformar a capital pernambucana em protagonista, o filme reforça o potencial de Recife como destino cultural e histórico. Para o visitante, seguir esse roteiro é revisitar o passado, compreender o presente e vivenciar uma cidade que continua pulsando entre tradição, arte e resistência.

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