Antártida Oriental registra temperaturas abaixo de -90°C e pode concentrar o ponto mais frio da Terra

Pesquisas científicas indicam que o ponto mais frio da superfície terrestre está localizado na Antártida Oriental, também conhecida como Antártida Maior. Estudos baseados em dados de satélite apontam que a região já registrou temperaturas próximas de -98°C, superando marcas históricas anteriormente observadas no continente. A constatação foi detalhada em artigo publicado na revista Geophysical Research Letters em 2018, que analisou medições realizadas ao longo de mais de uma década.

A Antártida é tradicionalmente reconhecida como o continente mais frio do planeta, mas as novas análises indicam que determinadas áreas da Antártida Oriental apresentam condições extremas ainda mais severas do que aquelas registradas na Estação Vostok, base de pesquisa russa situada no interior do continente. Na Estação Vostok, a menor temperatura do ar oficialmente registrada foi de -89,2°C, em julho de 1983, número que por décadas foi considerado o recorde absoluto.

O estudo intitulado “Temperaturas de superfície ultra-baixas na Antártica Oriental a partir do mapeamento infravermelho térmico por satélite” identificou valores ainda mais baixos na superfície da neve. Segundo os pesquisadores, a temperatura mínima detectada na região chegou a aproximadamente -98°C, resultado obtido por meio da análise de imagens térmicas coletadas por satélites durante o inverno do Hemisfério Sul.

Os dados utilizados no levantamento foram reunidos entre 2004 e 2016. Durante esse período, os especialistas monitoraram a superfície do gelo antártico e constataram que, em cerca de 100 locais diferentes da Antártida Oriental, as temperaturas da neve ficaram abaixo de -90°C durante grande parte do inverno. As medições não se referem à temperatura do ar a dois metros de altura, como ocorre nas estações meteorológicas tradicionais, mas sim à temperatura da superfície da neve captada por sensores infravermelhos.

As temperaturas mais baixas foram registradas em depressões rasas do relevo, situadas próximas ao topo da camada de gelo, em altitudes que variam entre 3.800 e 4.050 metros acima do nível do mar. Nessas áreas, o ar extremamente frio tende a se acumular, favorecendo a intensificação do resfriamento. A combinação entre altitude elevada, relevo específico e condições atmosféricas estáveis contribui para a formação desses pontos de frio extremo.

Os autores do estudo apontam que tais condições ultra-frias ocorrem com maior frequência quando o vórtice polar antártico está fortalecido. O vórtice polar é um sistema de ventos persistentes de grande escala que circula ao redor dos polos da Terra. Quando esse sistema se intensifica, ele ajuda a manter o ar frio confinado sobre o continente, reduzindo a troca de massas de ar com latitudes mais baixas.

O resfriamento extremo também depende de céu limpo, baixa velocidade dos ventos e reduzida presença de vapor d’água na atmosfera. Nessas circunstâncias, o calor irradiado pela superfície escapa com maior eficiência para o espaço, permitindo que a temperatura continue a cair. Segundo os pesquisadores, para que a marca de aproximadamente -98°C seja atingida, é necessário que essas condições persistam por vários dias consecutivos.

Os especialistas destacam ainda que esse valor pode representar o limite físico de resfriamento para superfícies terrestres nas condições atuais do planeta. A combinação de altitude, isolamento geográfico e características atmosféricas específicas da Antártida Oriental cria um ambiente singular, dificilmente replicado em outras regiões da Terra.

Embora a Estação Vostok continue sendo o local com o menor registro oficial de temperatura do ar medido por instrumentos convencionais, as análises por satélite ampliaram o entendimento sobre o potencial de resfriamento da superfície antártica. A diferença entre temperatura do ar e temperatura da superfície explica parte da discrepância entre os números históricos e as novas estimativas.

A identificação desses valores extremos contribui para o avanço das pesquisas sobre clima polar, dinâmica atmosférica e comportamento das camadas de gelo. O monitoramento contínuo por satélites permite refinar estimativas e compreender melhor os mecanismos que regulam o equilíbrio térmico nas regiões mais frias do planeta.

Rolar para cima